O objetivo da publicação é preencher uma lacuna histórica e fortalecer o reconhecimento do Carnaval como patrimônio cultural vivo da cidade.
O historiador, professor e agente cultural Guto Borges lança uma campanha de financiamento coletivo para viabilizar a publicação de um livro inédito sobre a história do Carnaval de Belo Horizonte.A iniciativa busca registrar, organizar e tornar acessível a memória de mais de um século de folia na capital mineira, reunindo pesquisa documental, entrevistas e acervos dispersos que ajudam a contar a trajetória da festa. A campanha tem como meta arrecadar R$ 27.322 e oferece cotas de apoio que variam de R$ 35 a R$ 600, com recompensas como exemplar antecipado do livro, cartaz, bandeira temática e uma edição do LP “Deita no Cimento”. Os interessados podem contribuir por meio da plataforma benfeitoria.
“Acabamos de fazer mais um Carnaval, e mais um ano Belo Horizonte demonstra ter um carnaval rico e pulsante; no entanto, você já parou para pensar no que a gente conhece desses mais de um século de folia na cidade? Nós temos na ponta da língua personalidades, agremiações, canções que marcaram o carnaval de outras cidades, mas e a nossa história? Não deixa de ser impressionante que não haja um livro sequer que organize essa trajetória, que vai muito além das movimentações das últimas décadas”, provoca Guto.
Além dos quase 20 anos puxando bloco na rua, Guto é historiador de formação e pesquisa o Carnaval de BH há muitos anos. Em 2024, esteve à frente da elaboração do Histórico do Carnaval de Belo Horizonte no processo de registro da festa como patrimônio imaterial da cidade. “Essa é uma história muito dispersa. Neste tempo, conversei com muita gente, ouvi relatos incríveis, fui atrás de canções antigas, fotografias, documentos, memórias e todo tipo de vestígio que ajudasse a contar a trajetória do nosso Carnaval. Uma festa monumental como essa necessita de sustentação histórica; se não, sabemos, não parará em pé”, afirma.
Um livro para organizar mais de um século de folia
O projeto nasce da urgência de registrar, preservar e compartilhar essa memória coletiva. Apesar do crescimento exponencial do Carnaval belo-horizontino nas últimas décadas, ainda não existe uma obra que sistematize sua história desde o final do século XIX, incluindo as experiências construídas nos territórios populares e periféricos, pelas escolas de samba, blocos caricatos, bandas e coletivos que sustentaram a festa ao longo do tempo.
A arrecadação viabilizará a compra antecipada do livro, resultado de pesquisa em arquivos públicos e privados, acervos documentais, discográficos e audiovisuais, além de entrevistas e diálogos com protagonistas da festa. O projeto também prevê ações de acessibilidade e estratégias de difusão para ampliar o alcance do conteúdo.
A pesquisa e escrita contam ainda com a colaboração de Igor Cardoso, doutor em História pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) e coordenador do projeto Horizontes do Samba, responsável pelo registro do samba de BH como patrimônio imaterial do município em 2024.
Os eixos centrais do livro
A publicação organiza a história do Carnaval de BH em nove grandes períodos:
- 1898–1937: os primeiros anos da festa na cidade planejada, com clubes da elite e presença popular pouco registrada.
- 1937–1945: surgimento da primeira escola de samba, a Pedreira Unida, e afirmação das raízes negras e suburbanas.
- 1946–1955: fortalecimento das escolas de samba e consolidação dos desfiles como espetáculo comunitário.
- 1955–1960: ascensão dos blocos caricatos e tensão criativa nas ruas.
- 1960–1979: consolidação dos concursos na Avenida Afonso Pena e expansão dos bailes e canções carnavalescas.
- 1980–1989: auge da festa com estruturação institucional e crescimento de público.
- 1990–2000: declínio dos desfiles e resistência em bailes e clubes.
- 2000–2009: retomada cultural impulsionada por movimentos como a “Faculdade do Samba”.
- 2009–2012: emergência do Carnaval de rua contemporâneo, descentralizado e insurgente.
Sobre o autor
Mestre em História pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). Coorganizador do livro Imaginação da terra: memória e utopia no cinema brasileiro (Editora UFMG, 2012). Pesquisador do Projeto República: núcleo de pesquisa, documentação e memória/UFMG. Como músico e agitador cultural, é figura referencial da retomada do carnaval de rua em Belo Horizonte. Foi colunista semanal na Rádio Inconfidência. Possui artigos e capítulos publicados sobre história e cultura urbana. Atua como professor no ensino médio e em projetos sociais.
Campanha – Publicação: História do Carnaval de BH
Até dia 24 de abril – benfeitoria.com/projeto/historiadocarnavaldebh



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