Ação revive a tradição dos retratistas ambulantes e presenteia o público com monóculos; em cartaz até dia 22/2, no Museu da Inconfidência, em Ouro Preto, mostra é resultado de dez anos de pesquisa artista com a Festa do Rosário do Serro
Neste sábado, dia 6/12, o artista visual Tiago Aguiar conduz uma visita guiada especial na exposição “Rusá: Devoção e Celebração”, em cartaz no Museu da Inconfidência, em Ouro Preto. A atividade gratuita, realizada das 10h às 12h, propõe uma imersão que transcende a observação: o público é convidado a participar de uma sessão de retratos que dialoga diretamente com a série “Quermesse”, integrando os visitantes à poética da mostra.
Revisitando o ofício dos antigos “retratistas de feira”, Aguiar ativa seu estúdio dentro do museu, onde os participantes serão fotografados diante do trabalho “Campo Santo” (2019) — o desenho em lona da Igreja do Rosário do Serro que, originalmente, está ao fundo para toda a série “Quermesse”.
A ação propõe uma vivência artística singular: ao posar diante da mesma obra que compõe o cenário das fotografias expostas, o visitante experimenta o processo de criação do artista e se insere na narrativa visual da exposição. Para completar a experiência, tal qual os comerciantes que viajavam de cidade em cidade, Tiago entregará o registro em monóculos, materializando a memória desse encontro em um objeto de afeto e tradição.
Repleta de cores vibrantes, histórias, danças e tradições seculares, a Festa do Rosário é um rito religioso que se espalha por um tecido social complexo, responsável por unir gerações em Minas Gerais que encontram em Nossa Senhora do Rosário uma devoção inexorável, enraizada na cultura brasileira.
No Serro, importante rota do ciclo do ouro, a celebração acontece desde, pelo menos, 1716, e é carinhosamente apelidada de festa “du Rusá”. Essa é a palavra imagética que conduz a exposição do fotógrafo mineiro Tiago Aguiar, que pode ser vista até dia 22/2, na Sala Manoel da Costa Ataíde, no Anexo I do museu. A visitação é gratuita e acontece de terça-feira a domingo, das 10h às 18h.
Raízes
Natural do Serro, no Vale do Jequitinhonha, Tiago Aguiar convive com a Festa do Rosário desde criança. Ainda jovem, deixou a terra natal para estudar e trabalhar em Nova York (EUA), mas, como ele diz, “o Rusá nunca saiu de mim”. Em 2010, de volta à cidade, retomou o contato com a celebração, agora com uma câmera nas mãos e um olhar mais aguçado. “O Rusá é um ímã: de som, cor, forma e movimento. Eu fui atraído. No primeiro ano, foi um maravilhamento, porque é uma experiência visual muito potente. No ano seguinte, eu já vim com outra intenção, estudei um pouco mais, pesquisei, comecei a ouvir quem faz a festa”, lembra.
Ao longo de dez anos de pesquisa, entre 2010 e 2020, Tiago registrou e conviveu intensamente com os protagonistas que mantêm viva a tradição da Festa do Rosário no Serro, entre dançantes, rainhas, viajantes, benzedeiros e comerciantes. Em 2019, o fotógrafo passou a integrar o grupo dos catopês, um dos principais congados da celebração. Junto aos marujos e caboclos, os catopês formam o Congado da Festa do Rosário, com suas fardas coloridas, adornadas com fitas, bordados e tecidos brilhantes que transformam as ruas da cidade em uma manifestação de cores vivas e intensas.
“Cultivei amizades com alguns mestres do Congado e eles iam me apontando os caminhos de saberes ancestrais. Foi nesse percurso de aproximação e aprendizado que minha devoção também cresceu. O envolvimento com a festa deixou de ser apenas pesquisa ou afeto de infância e passou a ser prática espiritual, de identificação e compromisso”, explica o fotógrafo.
A exposição em Ouro Preto é uma realização do Ponto de Cultura Movimento Áurea, da cidade do Serro, que tem como finalidade o desenvolvimento de ações voltadas ao estímulo das manifestações artísticas e culturais, à preservação e valorização do patrimônio cultural mineiro e à inclusão de minorias historicamente excluídas do acesso às formas artísticas de expressão de valores culturais.
Devoção histórica: entre o Serro e Ouro Preto
Depois de ser apresentada a céu aberto no percurso da procissão, pelas ruas do Centro Histórico na festa deste ano, e também na Uncool Gallery, em Nova York (EUA), em 2024, a exposição “Rusá: Devoção e Celebração” chega agora a Ouro Preto, considerada uma cidade-irmã do Serro.
De acordo com Ariel Lucas Silva, doutor em História pela UFMG e um dos diretores do Movimento Áurea, “as duas celebrações também se destacam pela continuidade histórica e institucional: a Irmandade do Rosário dos Homens Pretos de Ouro Preto foi formalizada em 1715 e, no Serro, desde 1716 já se elegiam reis e rainhas do Rosário, sendo a irmandade formalizada em 1728. Essa proximidade temporal indica a rápida difusão da devoção pelo território das Minas, sustentada por redes de sociabilidade que ultrapassavam fronteiras paroquiais. Em ambas as localidades, as irmandades se consolidaram como instituições fundamentais na vida social, promovendo práticas de auxílio mútuo, rituais fúnebres, alforrias e celebrações que uniam religiosidade e solidariedade”.
Outro ponto em comum destacado por Ariel, que, assim como Tiago é também dançante catopê no Serro, é o caráter simbólico e libertador da festa: “Em Ouro Preto, a figura lendária de Chico Rei representa a conquista da liberdade e a reconstrução da identidade africana por meio da fé; no Serro, o relato da aparição de Nossa Senhora do Rosário sobre as águas evoca igualmente a ideia de proteção divina e de recomeço. Em ambas as narrativas, o sagrado se manifesta como força de superação das adversidades impostas pela escravidão e como fundamento da esperança coletiva”, completa.
Trajetória do Rusá: dançantes, viajantes e quermesses
Com cerca de 30 fotografias, instalações táteis e audiovisuais, a exposição é dividida em quatro eixos temáticos: “Dançantes”, “Caravana”, “Quermesse” e “lá du rusá”. Criando imagens capturadas propositalmente com flash, Tiago Aguiar joga luz sobre a individualidade dos protagonistas da Festa do Rosário do Serro. “As fotos contam diferentes camadas da festa, mas todas focadas em evidenciar as pessoas que constroem a celebração”, diz.
“Em ‘Dançantes’, após fotografar por anos os marujos, caboclos e catopês pelas ruas da cidade durante a festa, com suas fardas coloridas, surgiu o desejo de uma fotografia mais pessoal, em estúdio. Essa mudança proporciona maior intimidade e agência dos fotografados na produção da imagem.
“Em ‘lá du rusá’, ao reencontrar os fotografados para entregar o resultado da nossa sessão anterior, criamos um novo retrato com as mesmas pessoas, sem as vestimentas tradicionais, em suas casas, como são no dia a dia. É uma forma de lembrar que, por trás do brilho, existe o ser humano, o devoto, o trabalhador. E existe também um conhecimento de vida profundo, que é fruto da tradição do Rosário”, analisa Tiago Aguiar.
Na série “Caravana”, Tiago se volta aos impactos do crescimento econômico da celebração, que atrai viajantes e comerciantes de várias partes do Brasil e do mundo. “Hoje, o Rusá se apresenta como ponto de encontro de comerciantes informais que cruzam todo o estado. Já encontrei gente do Equador, de Senegal, que vende de tudo, roupa, calçado, eletrônico. A festa sempre foi um espaço de trocas culturais. Ela fala muitas línguas, conserva tradições, mas está aberta ao novo, em torno de uma mesma fé”, diz Tiago.
Já o eixo “Quermesse” atualiza a antiga caracterização da festa, com barracas artesanais de bambu, hoje substituídas pelas estruturas de metal pré-fabricadas, e dos retratistas, comuns nas festas populares. Para isso, o fotógrafo criou uma instalação inspirada nas antigas quermesses da cidade, com lonas, cartazes lambe-lambe e monóculos, que remontam à tradição fotográfica bastante popular no Brasil entre as décadas de 1970 e 1980, na qual as fotos podem ser vistas por um pequeno dispositivo mediador de imagem que cabe no bolso.
“O monóculo é uma forma de transportar a pessoa para dentro da cena, é muito íntimo. Então, é uma interação muito interessante para os visitantes. Algumas fotos poderão ser vistas por meio deste caráter mais afetivo”, avalia Tiago.
Vozes e histórias da Festa do Rosário
Além das fotografias, a exposição também convida o público a ouvir as vozes do Rusá. Por meio de áudios e QR Codes, o visitante poderá ouvir histórias e ensinamentos de personalidades centrais da festa, como Sebastião Lopes Ramos, conhecido por Seu Bastiãozinho das Lages, e Seu Ildeu Coqueiro, dois antigos benzedores do Serro. Os visitantes também poderão contemplar o diálogo divertido na venda de um pendrive de forró e as experiências de Heloísa, dona da tradicional barraca “Bar Defunto”, uma das lendárias barracas montadas no Largo do Rosário.
“Essas pessoas são a alma da festa. Cada uma delas carrega uma sabedoria, uma força ancestral. Descobri, por exemplo, que o Seu Mirto trabalhou na fazenda do meu bisavô. Isso me mostrou como as gerações se cruzam no Serro. A fé vai se renovando nas famílias”, explica Tiago.
“Da Beira do Caminho”
Paralelamente à exposição, o Ponto de Cultura Movimento Áurea se prepara para lançar, em 2026, o projeto “Da Beira do Caminho”, no qual apresenta um mapeamento de 14 cruzes de almas instaladas na estrada entre Belo Horizonte e o Serro. A proposta reflete um olhar sensível de Tiago Aguiar sobre o luto, a devoção e o cuidado com as vidas perdidas de forma repentina, e muitas vezes trágica, na rodovia.
“Eu vou até as cruzes, capino, pinto a cruz, tiro o lixo. É um gesto de zelo”, diz Tiago. “A devoção à Nossa Senhora do Rosário também fala sobre isso: do cuidado com quem está a caminho, de quem parte de repente. E a Irmandade do Rosário é responsável por zelar pela almas dos irmãos defuntos. É um compromisso registrado no nosso tricentenário livro de compromisso”, justifica.
A circulação da exposição “Rusá: Devoção e Celebração” em Ouro Preto é uma realização do Movimento Áurea Cidadania e Identidade Cultural e do Ministério da Cultura do Brasil, por meio da Política Nacional Aldir Blanc. O projeto conta ainda com o apoio do Museu da Inconfidência e da Secretaria de Estado de Cultura e Turismo de Minas Gerais (Secult MG). Projeto ID 14781 – Edital 10/2024 – Circulação de Espetáculos.
Perfil – Tiago Aguiar
Nascido em 1983, no Serro (MG), Tiago Aguiar viveu na cidade até os 15 anos, quando se mudou para Belo Horizonte. Formado em Comunicação Social, especializou-se em fotografia no Hallmark Institute of Photography (Massachusetts, EUA). Trabalhou como fotógrafo comercial em Nova York, antes de retornar ao Brasil, em 2009, para se dedicar à pesquisa sobre a Festa do Rosário de sua cidade natal. Desde então, vem realizando projetos que unem arte contemporânea, religiosidade popular e memória coletiva.
Exposição “Rusá: Devoção e Celebração”, de Tiago Aguiar
Visita guiada e sessão fotográfica com o público
Quando. Sábado, 6/12, das 10h às 12h
Onde. Sala Manoel da Costa Ataíde, Anexo I do Museu da Inconfidência
(Rua Vereador Antônio Rodrigues, 33 – Centro Histórico de Ouro Preto)
Visitação. Até dia 22/2/26, de terça a domingo, das 10h às 18h
Quanto. Entrada gratuita
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