Publicação do projeto “Laboratório Sem Receita”, idealizado pela fotógrafa e cozinheira Luisa Macedo, traz saberes, memórias e processos criativos de merendeiras de Itabirito; lançamento acontece na próxima terça-feira (9)
Uma cozinha sem fórmulas prontas, onde memória, afeto e imaginação se transformam em criação coletiva. É esse universo que ganha registro no caderno digital do projeto “Laboratório Sem Receita”, que será lançado virtual e gratuitamente na próxima terça-feira, dia 9 de junho, reunindo receitas inéditas, fotografias, textos e reflexões produzidos a partir de uma série de oficinas realizadas com merendeiras da região de Itabirito, em Minas Gerais.
O caderno, que poderá ser acessado neste link, documenta os encontros conduzidos pela cozinheira e fotógrafa mineira Luisa Macedo e apresenta os desdobramentos de uma experiência que convidou profissionais da alimentação escolar a pensar a cozinha para além das receitas convencionais, explorando o alimento como linguagem, memória e território de invenção.
Ao longo de quatro turmas, as participantes foram desafiadas a criar coletivamente preparos inéditos a partir de ingredientes carregados de significados pessoais, transformando lembranças, afetos e experiências cotidianas em pratos, imagens e narrativas. O material agora lançado registra esse percurso e busca inspirar novas formas de relação com a comida e com os processos criativos.
Um laboratório para reinventar receitas e memórias
Criado em 2017, por Luisa Macedo, o “Laboratório Sem Receita” nasceu da vontade de aproximar a gastronomia, da arte e da participação coletiva. A proposta convida os participantes a levarem ingredientes ligados a receitas importantes de suas histórias de vida. A partir deles, o grupo é provocado a abandonar fórmulas prontas e criar novos preparos em conjunto.
“O gesto de recriar é também uma forma de agregar mais uma camada à memória inicial. Muitas vezes as pessoas chegam muito ligadas à receita que trouxeram, mas aos poucos entendem que transformar também é uma forma de preservar e expandir essas lembranças”, explica Luisa.
Segundo ela, a iniciativa busca estimular a autonomia criativa e questionar a ideia de que cozinhar significa apenas seguir instruções. “Costumo dizer que a cozinha é uma linguagem. Assim como aprendemos a escrever, podemos desenvolver nossa própria forma de nos expressar por meio dos ingredientes. O laboratório não nega as técnicas culinárias, mas propõe que elas convivam com a liberdade de experimentar”, pontua.
A experiência com as merendeiras
A edição que deu origem ao caderno teve como foco merendeiras da região de Itabirito. Acostumadas a trabalhar diariamente com cardápios definidos e rotinas rígidas, elas foram convidadas a experimentar a cozinha sob outra perspectiva, exercitando o improviso, a criatividade e a construção coletiva.
Para Luisa, a escolha do público está ligada também à sua própria trajetória. “Sempre tive muito interesse pelo trabalho das merendeiras. Estudei a vida toda em escola pública e me lembro de observar as cozinheiras trabalhando. O laboratório surgiu como uma oportunidade para que elas pudessem experimentar uma liberdade que muitas vezes não cabe na rotina profissional”.
Durante os encontros, além de desenvolver novos pratos, as participantes foram convidadas a escrever e produzir imagens relacionadas às criações realizadas em grupo. “Foi muito bonito perceber a disposição delas em estar presentes e se abrir para o processo. Acho que cozinhar coletivamente e depois narrar essas experiências funcionou como um respiro, um espaço de criação e troca”, completa a mineira.
Cozinha como possibilidade de invenção
Um dos princípios centrais do “Laboratório Sem Receita” é romper com a lógica da reprodução e incentivar a experimentação. Os ingredientes trazidos pelos participantes só são revelados no momento da atividade, estimulando combinações inesperadas e abrindo espaço para aquilo que Luisa chama de “anti receitas”.
Em uma das edições, uma participante que havia levado a referência de uma couve-flor ao molho branco foi provocada a imaginar o ingrediente em uma preparação doce.
“Ela ficou surpresa no início, porque associava a couve-flor exclusivamente a pratos salgados. Mas acabou criando um creme doce de couve-flor com leite de coco e gergelim que ficou delicioso. São esses deslocamentos que me interessam”, explica Luisa, para quem o projeto funciona como um contraponto à crescente associação da cozinha a padrões de excelência.
“Meu desafio é fazer com que as pessoas se permitam experimentar. Quando entendem que não existe uma receita correta a ser alcançada, elas passam a olhar para os ingredientes e para si mesmas de uma forma mais aberta e generosa”.
Um convite à experimentação
Mais do que registrar as atividades, o caderno virtual busca prolongar a experiência e incentivar novas práticas criativas. A publicação reúne 20 preparos desenvolvidos ao longo das oficinas, acompanhados de textos e fotografias produzidos durante o processo.
“Quando pensei no caderno, quis que ele funcionasse como um disparador de novas possibilidades. Espero que quem tenha contato com esse material se sinta convidado a experimentar mais, a confiar nos próprios processos criativos e a enxergar a cozinha como um lugar de múltiplas formas de expressão”, afirma Luisa.
Este projeto é realizado com recursos da Política Nacional Aldir Blanc de Fomento à Cultura em Minas Gerais (PNAB-MG), por meio do Edital Chamamento Público Capacitações 2024.
Sobre o caderno “Laboratório Sem Receita”
A publicação digital reúne os resultados da edição do projeto “Laboratório Sem Receita”, realizada com merendeiras da região de Itabirito. O material apresenta receitas inéditas, fotografias, textos e registros dos encontros conduzidos por Luisa Macedo, tendo como eixo a comida enquanto linguagem, memória, afeto e criação coletiva.
Lançamento do caderno digital “Laboratório Sem Receita”
Quando. 9 de junho de 2026 (terça-feira)
Onde. linktr.ee/luisa.macedo
Quanto. Gratuito



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