Feira Chinelo expande edição e lança espaço para artes gráficas – 12 a 20/09

Evento autogestado ocupa a Galeria Mama Cadela em dois finais de semana e fortalece a cena mineira no circuito contemporâneo.


A Feira Chinelo realiza sua quinta edição reunindo arte contemporânea, lançamentos de publicações e programação cultural na Galeria Mama Cadela, no tradicional bairro de Santa Tereza. Com entrada gratuita, a feira acontece ao longo de dois finais de semana consecutivos: nos dias 12, 13, 19 e 20 de setembro, das 10h às 20h. O projeto, criado em 2023 por uma rede autogestada de artistas locais, posiciona o circuito independente de Belo Horizonte na vanguarda de uma transformação estrutural do mercado de arte contemporânea, marcada por novas formas de expor, conviver e comercializar obras fora do eixo tradicional.

A consolidação do evento na cena mineira acompanha um movimento de recuperação do setor. No mesmo ano em que a feira realizou sua primeira edição, em 2023, o mercado brasileiro de artes visuais cresceu 21% e movimentou R$ 2,9 bilhões, segundo a 7ª Pesquisa Setorial do Mercado de Arte no Brasil, realizada pela Act Arte em parceria com a ABACT e a ApexBrasil. A expansão da feira para quatro dias de ocupação reflete a evolução apontada no estudo: as feiras de arte deixaram de atuar apenas como pontos de venda rápida. Elas se tornaram espaços essenciais de convivência, formação de público e renovação curatorial.

Autogestão como resposta às assimetrias do mercado

A recente pesquisa setorial revela um gargalo estrutural nas galerias comerciais do país, onde 63% dos artistas representados são homens. A Feira Chinelo atua diretamente na correção dessa disparidade. A curadoria adota um recorte intencional, priorizando produções de mulheres, mães em processo de retomada da carreira e da comunidade LGBTQIA+, com atenção especial para artistas trans e não binários.

Organizada e gerida pelos próprios artistas, a feira substitui os critérios rígidos das seleções institucionais pela cooperação direta. Ao acolher trajetórias frequentemente invisibilizadas pelas galerias tradicionais, o projeto fortalece uma rede autônoma de sustentação financeira e circulação artística em Minas Gerais.

“Quando a curadoria e a gestão estão nas mãos dos próprios artistas, eles deixam de ser apenas aqueles que produzem e passam a participar das decisões sobre como seus trabalhos serão apresentados e inseridos no circuito. Para nós, isso significa construir um mercado mais diverso sem transformar a diversidade em uma tendência passageira. Em vez de esperar que as estruturas tradicionais abram espaço, os próprios artistas passam a criar as condições para que outras narrativas, corpos e trajetórias tenham autonomia em Belo Horizonte”, destaca a idealizadora do projeto e produtora artística, Julianismo.

Novos colecionadores, acessibilidade e o valor da arte gráfica

O modelo proposto pela Chinelo dialoga diretamente com as transformações no consumo cultural e com a chegada de uma nova geração de compradores, marcada por um perfil de colecionadores com menos de 40 anos. De acordo com o Art Basel and UBS Survey of Global Collecting 2025, esses jovens buscam formatos de feiras mais acessíveis, que favoreçam a descoberta de artistas emergentes sem a pressão dos grandes investimentos iniciais.

A Feira Chinelo atua no fortalecimento desse movimento ao romper a barreira invisível que frequentemente afasta quem sente que ainda “não entende de arte”. Ao substituir a validação curatorial institucional – muitas vezes distante e excludente – pela voz, pelo acolhimento e pelo olhar dos próprios artistas, o evento se posiciona como um ponto de encontro plural. É um espaço aberto tanto para compradores experientes em busca de novidades quanto para quem deseja adquirir sua primeira obra e iniciar um acervo de forma espontânea.

Essa busca por aproximação se materializa na grande novidade desta edição: a Feirinha Chinelo, um espaço dedicado exclusivamente à arte gráfica na galeria. A iniciativa reúne zines, prints, risografias, livros de artista, quadrinhos e publicações independentes. Linguagens historicamente secundarizadas nos grandes eventos comerciais ganham status de destaque na feira, operando com uma lógica comercial justa: 100% do valor arrecadado com as vendas fica diretamente com o artista.

“A feira gráfica surge justamente como um passo além na democratização. Prints, zines e risografias têm valores mais acessíveis, ampliando o número de pessoas que podem ter contato direto com a produção artística. Isso cria uma porta de entrada importante para uma nova geração de colecionadores em Belo Horizonte: pessoas que percebem que podem começar uma coleção com uma obra gráfica e, a partir daí, construir uma relação duradoura com a arte”, afirma.

Pé no chão

O nome do evento sintetiza a sua proposta. Em vez do tom solene que costuma afastar o público dos espaços tradicionais de arte, o chinelo evoca o cotidiano, a simplicidade e a brasilidade. O convite é para ocupar a galeria com o pé no chão, sem barreiras formais e com a liberdade de quem reconhece a cultura como parte do dia a dia da cidade.

“O nome ‘Chinelo’ vem de uma situação muito cotidiana: amigos que diziam que não estavam com a roupa adequada para ir a uma feira de arte ou que não se sentiam à vontade em galerias. É um convite para vir do jeito que der, do jeito que você é. A gente gosta de mostrar que colecionar não precisa ser visto como algo distante ou elitista, mas como um gesto afetivo de vínculo e de apoio direto a quem produz”, conclui.

Feira Chinelo 2026

  • Datas: 12, 13, 19 e 20 de setembro de 2026 (sábados e domingos)
  • Horário: Das 10h às 20h
  • Local: Galeria Mama Cadela (Rua Pouso Alegre, 2048 – Santa Tereza, Belo Horizonte)
  • Entrada: Gratuita
  • Programação: Exposição de Artes Visuais, Feira de Arte Gráfica e atrações culturais paralelas