Ao reunir diferentes gerações de artistas, espetáculo investiga os segredos por trás dos diários de Judith Malina (The Living Theatre) durante sua prisão em Minas Gerais. Último processo que contou com participação de Teuda Bara (1941-2025), “Viagem pela noite de Minas” estreia enquanto antigo prédio do DOPS é alvo de disputas em BH
Em seus diários, a diretora Judith Malina descreve sua passagem por Minas Gerais nos anos 1970, com o grupo Living Theatre, em plena ditadura militar brasileira. A partir de tais registros, nasce o espetáculo “Viagem pela noite de Minas”, que reúne diferentes gerações de artistas, como Marina Viana, Jean Gorziza e João Santos – além de ter sido o último processo com participação da atriz Teuda Bara (1941-2025), do Grupo Galpão –, para refletir sobre o fazer artístico em momentos de adversidade. Dirigida por Eduardo Moreira (Grupo Galpão), a peça fica em cartaz, em Belo Horizonte, de 22 a 31 de maio, no Teatro Francisco Nunes (avenida Afonso Pena, 1321 – Centro de BH), às sextas (20h), aos sábados (duas sessões: 18h e 20h) e domingos (18h). A classificação é de 12 anos. Os ingressos, a preços populares – R$ 20 (inteira) e R$ 10 (meia) –, podem ser adquiridos no endereçohttps://site.bileto.sympla.com.br/teatrofrancisconunes.
O DIÁRIO COMO ARTIFÍCIO DA ATRIZ
A criação de “Viagem pela noite de Minas” é marcada por duas ausências que, embora distantes no tempo, aproximam-se pela força de seus gestos: a prisão de Judith Malina, nos anos 1970, e a partida de Teuda Bara, figura central na concepção deste projeto. Em contextos distintos, ambas deixam uma mesma lição de continuidade: mesmo diante das maiores adversidades, o teatro ainda pode ser uma forma de responder ao mundo.
É a partir dessa perspectiva que o espetáculo se desenvolve, tomando como ponto de partida os diários escritos por Malina durante o período em que esteve presa em Minas Gerais, em 1971. À primeira vista, os textos parecem deslocados da violência que os cerca. No entanto, ao longo da pesquisa, revelou-se que os diários, para Judith, eram também parte de sua atuação: ao mesmo tempo em que registrava o cotidiano, a escrita operava como proteção para o grupo e como meio de comunicação com o exterior, contribuindo para projetar internacionalmente a situação de repressão vivida no Brasil.
Ao investigar os possíveis segredos desses diários, a equipe se deparou com uma dimensão decisiva do material: mais do que narrar, Judith Malina também representava. Suas escolhas de linguagem revelam uma consciência aguda sobre o que podia ser exposto, o que precisava ser velado e o que ainda poderia circular. Os diários — publicados em 1971 no jornal Estado de Minas e amplamente repercutidos à época — passam, assim, a ser compreendidos não apenas como documento, mas como prática performativa.
A concepção original do espetáculo partia do encontro entre gerações, tendo Teuda Bara como eixo da cena. A proposta previa que sua voz conduzisse a leitura desses textos, em diálogo com outros artistas responsáveis por expandir e contextualizar os acontecimentos. Com sua ausência, o processo de criação foi inevitavelmente transformado. No entanto, longe de interromper a pesquisa, essa mudança passou a integrar o próprio trabalho, que se reorganiza a partir da ideia de continuidade.
O projeto nasce da iniciativa de Jean Gorziza e vinha sendo desenvolvido ao longo de 2025 em encontros com João Santos, Marina Viana e a própria Teuda Bara. Pouco antes de sua partida, Teuda convida Eduardo Moreira — seu colega na fundação do Grupo Galpão — para dirigir o trabalho. Diante da nova configuração, Moreira dá seguimento ao processo junto ao grupo, contribuindo para a construção da dramaturgia e para a realização do espetáculo.
VESTÍGIOS QUE RECONSTITUEM UM TEMPO
“Viagem pela noite de Minas” se constrói a partir de vestígios: fragmentos de uma forma de fazer teatro que acreditava radicalmente na arte como ferramenta de transformação social, de mobilização e de construção coletiva. Em cena, esses rastros são revisitados. O espetáculo se organiza em torno de três figuras. De um lado, dois pesquisadores, movidos por uma perspectiva mais racional, adentram um espaço em estado de desaparecimento, como se explorassem as ruínas de um certo ideal de teatro. Movidos pelos diários de Judith Malina, eles buscam compreender os acontecimentos vividos pelo Living Theatre em Minas Gerais e também a dimensão de fé, de urgência e de crença que sustentava aquele projeto artístico. É nesse percurso que encontram uma terceira figura: uma atriz que não se fixa como personagem, mas se apresenta como uma entidade em constante transformação. Ela atravessa tempos, linguagens e experiências: uma espécie de encarnação do próprio teatro e presença dionisíaca que tensiona, desloca e expande os limites da investigação. Ao mesmo tempo em que conduz os pesquisadores, ela também encarna Judith Malina, fazendo emergir, na cena, as múltiplas camadas de sua escrita.
Ao longo do espetáculo, os diários deixam de ser apenas objeto de análise e passam a ser veículo para experimentar, senão um contato direto com Judith Malina, uma visita aos seus ideais.
Além dessa fábula criada a partir dos diários de Judith Malina, os intérpretes também se revelam como artistas do presente, trazendo à cena suas próprias inquietações: as condições de criação hoje, os impasses do fazer artístico contemporâneo e as possibilidades de continuidade diante de um mundo em transformação. A presença e a memória de Teuda Bara atravessam esse gesto. Sua partida, durante o processo de criação, inscreve no espetáculo uma dimensão concreta de perda e legado, aproximando ainda mais as experiências de diferentes gerações. Ao lado de Judith Malina, Teuda se torna referência de uma prática artística comprometida com o tempo em que se vive e com a insistência em criar, mesmo diante das adversidades.
SOBRE O DOPS
A prisão dos integrantes do Living Theatre em Minas Gerais foi conduzida pelo DOPS, órgão central da estrutura de repressão da ditadura militar brasileira. Atuando na vigilância, perseguição e controle de opositores do regime, o DOPS foi responsável por uma série de prisões arbitrárias, investigações forjadas e práticas sistemáticas de violência institucional ao longo das décadas de 1960 e 1970.
No caso do Living Theatre, a acusação de posse de drogas serviu como justificativa para a detenção do grupo, em um episódio que evidencia o uso de mecanismos legais como instrumento de repressão política. A prisão, ocorrida às vésperas do Festival de Inverno da UFMG, insere-se em um contexto mais amplo de censura e perseguição a artistas, intelectuais e movimentos culturais no país.
Mais do que um episódio isolado, a ação do DOPS revela a tentativa de controle sobre formas de pensamento e criação que escapavam às normas estabelecidas pelo regime. A presença de um grupo estrangeiro, identificado com práticas coletivas, experimentais e politicamente engajadas, tensionava diretamente esse contexto, tornando-se alvo de vigilância e repressão.
Décadas depois, a memória dessas ações permanece em disputa. O antigo prédio do DOPS em Belo Horizonte, hoje objeto de reivindicações por sua transformação em espaço de memória, evidencia que os vestígios desse período ainda atravessam o presente. Ao mobilizar esse episódio histórico, Viagem pela noite de Minas busca, além de reconstruir uma memória, tensionar as formas como a história é preservada, esquecida ou reconfigurada ao longo do tempo.
MINIBIO DE EDUARDO MOREIRA:
Natural do Rio de Janeiro, Eduardo Moreira é ator, diretor e dramaturgo. Fundador do Grupo Galpão, participou de todos os seus 26 espetáculos, sendo diretor artístico da companhia. Como diretor, desenvolveu parcerias com Dell’Arte de Blue Lake, da Califórnia (EUA), Clowns de Shakespeare, de Natal (RN), entre outras. No cinema, atuou em O Ano que meus Pais saíram de férias, de Cao Hamburguer, Batismo de Sangue, de Helvécio Ratton, Mutum, de Sandra Kogut, entre outros longas e curtas, incluindo Para Tchékhov de Inês Peixoto, e dirigiu o curta-metragem Tricoteios. Na televisão, além de participações em capítulos de novelas, minisséries e casos especiais, incluindo a minissérie A menina sem qualidades, dirigida por Felipe Hirsch.
MINIBIO DE JEAN GORZIZA:
Jean Gorziza é ator, diretor de teatro, dramaturgo, pesquisador e produtor. Natural de Porto Alegre (RS), reside atualmente em Belo Horizonte (MG), onde cursa Graduação em Teatro pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). Integra os grupos PRISMA de Teatro (desde 2019) e Teatro da Fumaça (desde 2023).
No teatro, atuou como diretor nos espetáculos O Mundo Está em Chamas, O Teatro Também Tem de Estar (2023), em parceria com Júlia Oliveira; e Sobre Abrir os Olhos e Se Fechar em Mantos (2022). Recentemente, participou enquanto ator do espetáculo MINERAL IBSEN (2025), com direção de Marina Arthuzzi, e do solo O Farol (2024), dirigido por João Santos e por Raquel Pedras. Atua enquanto idealizador e coordenador da 1ª edição do projeto “Como Nossos Pais: Gente jovem reunida fazendo a cena do agora”, que visa ofertar formação e profissionalização no campo da dramaturgia para jovens belo-horizontinos entre 15 e 21 anos.
MINIBIO DE JOÃO SANTOS:
Doutorando, Mestre em Artes e Graduado em Comunicação Social/Jornalismo pela UFMG, João Santos é artista da cena, dramaturgo e profissional da comunicação e produção cultural. Como dramaturgo, teve seu primeiro texto encenado em 2015: “Doida”, espetáculo com Teuda Bara e Admar Fernandes, dirigido por Inês Peixoto. Em 2016, foi colaborador do Grupo Galpão no espetáculo “Nós”, dirigido por Marcio Abreu. Em 2017, assina o texto de “O Firme Soldadinho de Chumbo”, resultado do Oficinão do Galpão Cine Horto dirigido por Simone Ordones (2017) e inicia sua parceria com o diretor e dramaturgo Eid Ribeiro, prestando assistência a ele em “NIGHTVODKA”, espetáculo do Grupo Armatrux (2017) e “O Atormentador” (Cia Absurda, 2018). Atuou ainda na assessoria de comunicação de alguns dos mais importantes coletivos teatrais mineiros, tais como o Grupo Galpão, o Teatro Invertido e da Primeira Campainha sendo, desta última, integrante afetivo.
No Teatro da Fumaça, atuou nos espetáculos “O Mundo Está Em Chamas, O Teatro Também Tem de Estar” e “MINERAL IBSEN”, além de assinar as dramaturgias de “O Mundo Está Em Chamas, O Teatro Também Tem de Estar”, em parceria com Jean Gorziza, “Canção de Engate”, em parceria com Júlia Oliveira, e “MINERAL IBSEN”, em parceria com Jean Gorziza e Júlia Oliveira. Além disso, João é escritor, com um livro publicado, “Teuda Bara: Comunista demais para ser Chacrete” (Editora Javali, já em sua terceira edição), além de colaborações diversas publicadas em livros e outros veículos. Em 2024, circulou o país como ator em “Fim de Partida”, de Samuel Beckett com direção de Eid Ribeiro.
MINIBIO DE MARINA VIANA:
Marina Viana é atriz, performer, dramaturga e diretora de artes cênicas em Belo Horizonte. Mestre em Artes Cênicas pela Universidade Federal de Ouro Preto com a dissertação “Pequeno Organon Para o Teatro Fanzine performatização da precariedade, autodeboche e plagicombinação no Teatro de Belo Horizonte dos anos 10 ou Cabaré, Carnavandalização e poetas-vedetes nas Alterosas dos anos 10”. É integrante do Mayombe Grupo de Teatro, Teatro 171, Cia Primeira Campainha e é colaboradora de vários outros coletivos da cidade e fora dela. Também é avulsa. Poeta e Vedete. Teve banda, já publicou Zines, realiza prêmios e faz cabarés. Escreve manifestos e plagicombina canções alheias.
VIVA TEUDA BARA!
Teuda estreou profissionalmente como atriz no Teatro Marília, em 1976. Homenageamos agora a atriz neste espaço onde ela se consolidou: o liminar entre o palco e a rua. Ela sempre levou a vida como estivesse em cena, da mesma forma como emprestava, para as personagens que interpretava, sua presença e personalidades tão singulares. Na vitrine do Teatro Marília, esse espaço tão próximo da movimentada Avenida Alfredo Balena, prestamos a Teuda uma homenagem ali, próxima às pessoas passando, aos carros no trânsito, a quem, distraído, poderá se surpreender com uma irrupção de cor e alegria. Assim desejamos lembrar dela. Viva Teuda Bara!
Data: 23 de maio a 22 de julho de 2026
Concepção: João Santos
Produção: Beatriz Radicchi
Consultoria Criativa: Paulo André e Theda Mara
Foto: Eugênio Sávio
VIAGEM PELA NOITE DE MINAS
Direção: Eduardo Moreira
Elenco: Marina Viana, Jean Gorziza e João Santos
Dramaturgia: Eduardo Moreira, João Santos, Marina Viana e Jean Gorziza
Preparação corporal e assistência de direção: Guilherme Morais
Cenografia, figurinos e adereços: Mari Teixeira
Concepção de iluminação: Marina Arthuzzi e Rodrigo Marçal
Assistente de iluminação e operadora de luz: Domenica Morvillo
Operação de som e de projeção: Fabiano Lana, Júlia Oliveira e Ítallo Vieira
Captação dos áudios em off: Ítallo Vieira
Vídeos de projeção: Fabiano Lana, João Santos e Marina Viana
Vídeo Mapping: Fabiano Lana
Design Gráfico: Dê Jota
Fotos e vídeos de divulgação: Ítallo Vieira/Amanhã Filmes
Assessoria de Imprensa: Polliane Eliziário – Personal Press
Redes sociais: Jean Gorziza e João Santos
Acessibilidade em Libras: Rosane Lucas
Gestão financeira do projeto: Wanilda D’Artagnan
Produção: Beatriz Radicchi, Jean Gorziza e João Santos
Apoio: Grupo Galpão, Teatro 171 e Teatro da Fumaça
Parceria: Prisma Soluções Cênicas
Financiamento: Edital Novas Dramaturgias em Cena 2025 (FMC/PBH)
VIAGEM PELA NOITE DE MINAS
Direção: Eduardo Moreira
com Marina Viana, Jean Gorziza e João Santos
Temporada de estreia
22 a 31 de maio de 2026
Sextas – 20h
Sábados (duas sessões) – 18h e 20h
Domingos – 18h
A sessão do dia 24 de maio terá interpretação em Libras
Teatro Francisco Nunes
Av. Afonso Pena, 1321 – Centro, Belo Horizonte (MG)
Classificação: 12 anos
Duração: 60 minutos
Ingressos a preços populares: R$ 20 (inteira) e R$ 10 (meia)



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