Do Rio São Francisco aos palcos do mundo, o Magia Negra celebra o legado de um artista multifacetado que criou ritmos que transcendem o tempo
O Bloco Afro Magia Negra, conhecido por sua atuação na afrobetização e no enfrentamento ao racismo, realiza no Carnaval de 2026 sua homenagem anual, a “Opá Magia”, ao multifacetado artista mineiro Marku Ribas (1947–2013). A escolha de Ribas destaca não apenas sua relevância musical, mas também aspectos pouco conhecidos de sua trajetória, como sua participação em uma gravação de percussão para a icônica banda Rolling Stones durante seu exílio na França, um fato que sublinha a projeção internacional de seu talento. Nascido em Pirapora, Minas Gerais, Marku Ribas carregava em sua origem a confluência de culturas, sendo filho de pai negro e mãe descendente de indígenas Caiapós, uma miscigenação que se refletiu em sua sonoridade. A homenagem do Bloco Afro Magia Negra a Marku Ribas, ocorrerá durante o arrastão no bairro Concórdia, no dia 18 de fevereiro, a partir das 12h, na Praça Gabriel Passos.
A homenagem também é celebrada pela família do artista. Para Lira Ribas, filha de Marku Ribas, o reconhecimento do Bloco Afro Magia Negra reafirma a importância da preservação da memória da cultura negra em Belo Horizonte. “Mesmo tendo nascido em Pirapora, meu pai construiu sua vida em Belo Horizonte, formou família aqui e é, sim, um artista mineiro. O Magia Negra carrega essa força da música preta mineira e brasileira, e o Marku Ribas é um exemplo muito potente dessa tradição”, afirma.
Lira também destaca a relação de respeito e continuidade entre o legado do artista e o trabalho desenvolvido pelo bloco. “O Magia Negra é um bloco com um público politicamente engajado, que fortalece a cultura preta na cidade. Tenho certeza de que essa homenagem é uma celebração viva da existência do meu pai, dessa continuidade do espírito dele junto aos orixás. A família Ribas se sente profundamente honrada. Tenho certeza de que será um momento muito bonito e que ele estaria vibrante e orgulhoso”, completa.
Vida e Obra de Marku Ribas
A obra de Ribas é conhecida por sua capacidade de criar uma percussão singular que estabelece pontes entre as tradições musicais de Minas Gerais, as matrizes africanas e os diversos sons afrodiaspóricos da América Latina, incorporando ritmos como rumba, salsa e merengue. Ele também foi um pioneiro na tradução e adaptação do jazz e do funk americano para a música brasileira, criando uma identidade nacional sem perder a essência dos gêneros originais. Essa fusão de influências e a inovação rítmica são elementos que o fundador do Bloco Afro Magia Negra, Camilo Gan, aponta como essenciais, descrevendo a obra de Ribas como uma fábrica de códigos sonoros de Minas Gerais para o mundo. “Ele é um Deus sonoro, porque a obra dele continua em vigência”, considera Camilo.
A trajetória de Marku Ribas também é marcada pela perseguição política durante a ditadura militar brasileira. Sua estreia como baterista e cantor aconteceu ainda jovem, em 1962, no grupo Flamingo. Em 1967, mudou-se para São Paulo ao lado do parceiro Deo e lançou o LP Deo & Marco, pela gravadora Continental. No mesmo ano, participou do 2º Festival Internacional da Canção (FIC), no Rio de Janeiro, com a música Canto Certo. Anos depois, rebatizada como Alerta Geral e gravada por Alcione, a canção teve sua letra censurada pelo regime militar por seu teor crítico. Em 1968, a música Nunca Vi também foi censurada e, em outubro daquele ano, Marku Ribas foi preso, episódio que culminou em seu exílio em Paris. A experiência do exílio aprofundou sua conexão com as sonoridades afrodiaspóricas e consolidou sua atuação internacional, sem jamais romper os vínculos com Minas Gerais e com a cultura negra brasileira.
Além de sua carreira musical, que inclui composições gravadas por artistas como Alcione, Paula Lima e Elza Soares, Marku Ribas teve uma significativa atuação como ator, interpretando Carlos Marighella em “Batismo de Sangue” (2007) e participando de filmes como “Chega de Saudade” (2008) e “Lula, o Filho do Brasil” (2009). A homenagem insere-se no contexto do tema do bloco “A criação do mundo por ODÙDÚWÀ”, inspirado na cosmovisão Yorubá.
O bloco, criado em 2013, promove o letramento racial e o combate ao racismo, alinhando-se à estética sonora de Ribas. A celebração busca não apenas reverenciar a trajetória do artista, mas também despertar o interesse de novas gerações por sua produção artística, garantindo a perpetuação de sua influência. O evento é realizado pelo Bloco Afro Magia Negra e Ponto de Cultura Afrormigueiro, com patrocínio da CEMIG e do Governo do Estado de Minas Gerais, via Lei Estadual de Incentivo à Cultura de Minas Gerais – Descentra Cultura.
Bloco Afro Magia Negra – A criação do mundo por ODÙDÚWÀ – Carnaval 2026
Data: 18 de fevereiro de 2026
Horário: Concentração às 12h
Local: Praça Gabriel Passos – Rua Itararé, 96 – Bairro Concórdia – BH
Tema: A criação do mundo por ODÙDÚWÀ
Homenageado: Marku Ribas
Instagram: @blocoafromagianegra
Cronograma do Arrastão
12h00 Concentração;
13h00 Cerimónia de homenagem Opá Magia e Clarins da Bahia
14h00 Camilo Gan e o Samba de Terreiro convida Mestre Oluodé Rogério – SP e Gil da Viola – BA e Clarins da Bahia;
15h00 Ekedy Kely e as Yiaminas;
15h30 Saída do arrastão.



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