O Brasil virou a taça para cima – Enolife

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O país que bebe mais, planta mais e ainda vai contra a maré. 

Por Joelma Matos 

Tem uma notícia que chegou quietinha, mas merece taça erguida e brinde feito com vontade: o Brasil se tornou, em 2025, o maior consumidor de vinho da sua própria história. Não é força de expressão. É dado oficial, divulgado pela Organização Internacional da Vinha e do Vinho, a OIV, que acompanha o mercado global com lupa e régua. O país consumiu 440 milhões de litros no ano passado, uma alta de quase 42% em relação a 2024. Leu certo: quarenta e dois por cento. 

Agora vem a parte que faz essa história ser ainda melhor: enquanto o Brasil batia recorde, o mundo inteiro ia na direção contrária. O consumo global de vinho recuou quase 3% no mesmo período, pressionado pela perda de poder de compra das famílias e por mudanças nos hábitos de consumo em países que sempre foram referência no setor. Argentina e Chile, nossos vizinhos tradicionais de taça, reduziram tanto o consumo quanto o cultivo. E o Brasil? Expandiu a área de vinhedos pelo quinto ano consecutivo, chegando a 91 mil hectares, e ainda viu a produção crescer quase 10%. 

Isso não é coincidência. É construção. 

Por muito tempo, beber vinho no Brasil tinha um certo peso de cerimônia. Era coisa de ocasião especial, de jantar mais sofisticado, de presente para impressionar. O vinho vivia em uma bolha meio formal que afastava quem poderia ter adorado a bebida, mas se sentia de fora da conversa. Aos poucos, esse cenário foi mudando. O acesso facilitou, os preços diversificaram, a informação chegou às redes sociais sem jaleco e sem jargão, e o brasileiro foi entendendo que dá para abrir uma garrafa boa numa quinta-feira comum, sem precisar de motivo grandioso. 

E tem outro fator que não dá para ignorar: a viticultura brasileira cresceu em qualidade junto com o consumo. Não adianta criar apetite se não tem o que servir. Regiões como o Sul do país, com sua tradição consolidada, e novos polos como a Serra Gaúcha, o Vale do São Francisco, a Campanha Gaúcha e, cada vez mais, Minas Gerais com seus vinhos de inverno, foram entregando rótulos que fazem sentido para o paladar brasileiro, porque foram feitos por aqui, com clima daqui, para pessoas que entendem o calor, a mesa farta e a conversa que não tem hora para acabar. 

O Vale do São Francisco é um exemplo que merece pausa. Uma região semiárida, quente, que desafiou tudo o que o manual dizia sobre onde vinho poderia ser feito, e deu certo. Espumantes com frescor e acidez vibrante, colheitas que chegam até duas vezes ao ano, uvas que encontraram no rigor do clima nordestino uma identidade própria. É o tipo de história que cabe perfeitamente num copo de vinho porque exige curiosidade, coragem e disposição para não obedecer o roteiro. 

O espumante, aliás, virou o grande emblema desse novo momento do vinho brasileiro. Leve, festivo, versátil e cada vez mais bem feito, ele conquistou um público que antes nem se considerava apreciador de vinho. Tomou conta das festas, das mesas de boteco sofisticado, das confraternizações de fim de tarde e dos brindes de segunda-feira que celebram qualquer vitória pequena. Quem percebeu esse movimento cedo ganhou um consumidor fiel. 

Tem algo de muito bonito nesse cenário, e eu digo isso com a mesma leveza com que abriria uma garrafa de Chardonnay gelado numa tarde de sol: o Brasil está desenvolvendo um gosto próprio pelo vinho. Não está copiando modelo europeu, nem tentando ser algo que não é. Está bebendo do jeito brasileiro: com calor, com comida, com conversa, com balde de gelo improvisado e com aquela generosidade de encher a taça do outro antes de pensar na própria. 

O mundo encolheu. O Brasil abriu mais uma garrafa. E se os dados da OIV servirem de bússola, essa tendência tem ainda muito caminho pela frente. 

Próxima rodada é nossa. 

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