Mulheres levam artes marciais para a rotina

Pesquisa da Maximum Boxing aponta que seis em cada dez brasileiras praticam ou querem praticar esportes de combate; na Bodytech, a procura por jiu-jitsu, muay thai e boxe cresce entre alunas que buscam força, confiança e defesa pessoal.

A presença feminina nas artes marciais tem crescido nos últimos anos e transformado a dinâmica de modalidades historicamente associadas ao público masculino, como jiu-jitsu e muay thai. A procura já não se limita ao desempenho esportivo: muitas mulheres buscam nas lutas fortalecimento físico, autoestima, condicionamento, confiança e maior sensação de segurança no dia a dia.

Esse interesse acompanha uma tendência nacional. Pesquisa recente da Maximum Boxing aponta que seis em cada dez brasileiras praticam ou querem praticar esportes de combate, e que mais da metade associa esse interesse ao desejo de aprender a se proteger. Nas academias da Bodytech, esse movimento se reflete no aumento da procura pelas aulas de luta, hoje integradas à grade regular de atividades oferecidas aos alunos.  

O avanço ocorre em um contexto social preocupante. A 11ª edição da Pesquisa Nacional de Violência contra a Mulher, realizada em 2025 pelo Instituto DataSenado em parceria com o Observatório da Mulher contra a Violência, aponta que 3,7 milhões de brasileiras declararam ter sofrido agressão nos 12 meses anteriores ao levantamento. O estudo também mostra que 79% das entrevistadas acreditam que a violência contra a mulher aumentou no último ano.

A instrutora de lutas da Bodytech Savassi, Michelle Assis, acompanha essa mudança de perto. Praticante de luta desde os 16 anos, ela lembra que, no início dos anos 2000, a presença feminina nas academias era muito mais rara. Em muitos casos, as próprias alunas precisavam se mobilizar para formar grupos e viabilizar os treinos, já que a maior parte das aulas era voltada para homens.

Hoje, o cenário é diferente. “Eu percebi um aumento significativo. Hoje em dia vemos turmas cheias e mulheres cada vez mais interessadas, porque infelizmente se tornou uma necessidade saber se defender”, conta.

Segundo Michelle, a mudança também aparece entre crianças e adolescentes. Nas turmas mais jovens, a proporção entre meninos e meninas já se aproxima do equilíbrio, sinalizando uma transformação cultural na forma como as artes marciais são percebidas. Antes vistas quase exclusivamente como território masculino, as modalidades passaram a atrair mulheres de diferentes idades, perfis e objetivos.

Apesar do avanço, a professora ressalta que o ambiente das lutas ainda é majoritariamente masculino e que mulheres profissionais da área enfrentam desafios para conquistar espaço. Para ela, a presença de instrutoras contribui para tornar as aulas mais acolhedoras, especialmente para quem está começando. Muitas alunas se sentem mais confortáveis quando encontram mulheres em posições de liderança dentro da academia, o que ajuda a reduzir barreiras de entrada e a quebrar estereótipos ainda presentes no esporte.

Confiança, postura e comunidade

Além da defesa pessoal, a prática pode provocar mudanças na postura, na confiança e na percepção corporal das alunas. Michelle explica que, com o tempo, é comum observar transformações na forma como as mulheres se posicionam e reagem a diferentes situações do cotidiano. O treino também contribui para desenvolver leitura de risco e tomada de decisão, inclusive para reconhecer quando é mais seguro evitar um confronto ou se retirar de uma situação potencialmente perigosa.

Para a nutricionista clínica funcional e integrativa Silvana Portugal, aluna de jiu-jitsu da Bodytech, a experiência vai além da atividade física. Mesmo no início da prática, ela afirma que o esporte tem ajudado no desenvolvimento de disciplina, foco e mobilidade. “É uma atividade física e mental. O jiu-jitsu exige concentração e constância, e isso tem sido muito positivo até para a saúde cerebral”, conta.

Silvana também destaca que ter uma professora mulher faz diferença para quem está começando. “Ver uma professora ensinando mostra que é possível fazer os movimentos e me traz mais segurança durante os treinos”, afirma.

Treinos completos para o corpo

Nas unidades da Bodytech em Belo Horizonte, os alunos encontram diferentes modalidades de luta na programação. Segundo André Kabuto, professor de muay thai da unidade Ponteio, as aulas incluem práticas como jiu-jitsu, muay thai e boxe, combinando técnicas de combate, condicionamento físico e coordenação motora.

De acordo com André, as artes marciais oferecem um treino completo. Os movimentos exigem força, resistência, equilíbrio e agilidade, ativando diversos grupos musculares ao mesmo tempo. Braços, pernas, abdômen e core são trabalhados de forma intensa, além do ganho de condicionamento cardiovascular.

Com benefícios físicos, mentais e sociais, as artes marciais vêm se consolidando como uma alternativa cada vez mais procurada nas academias. Para muitas mulheres, a prática representa não apenas uma atividade esportiva, mas também uma forma de fortalecer a confiança, ampliar a autonomia e desenvolver ferramentas para lidar com os desafios impostos pela violência e pelo machismo.