Feijoada dedicada a Ogum, manifestação de Nkosi no candomblé de Angola, reúne comunidade em Belo Horizonte e arrecada recursos para a reforma da cozinha do Quilombo Manzo
“Eu, sincretizado na fé, sou carregado de axé e protegido por um cavaleiro nobre […]” Em abril, um dos orixás mais populares do Brasil, eternizado na voz do sambista Zeca Pagodinho, será celebrado com uma feijoada beneficente no Quilombo Manzo Ngunzo Kaiango, localizado na Rua São Tiago, 216, no bairro Santa Efigênia. O evento, com entrada gratuita, acontece no dia 19, a partir das 12h, com o objetivo de arrecadar recursos para a reforma da cozinha do quilombo.
Localizado nos pés da Serra do Curral, na região Leste de Belo Horizonte, o Manzo convida o público para um dia de samba, comida, ancestralidade e fé. De acordo com a makota e líder quilombola Cássia Kidoialê, a casa está mobilizada para celebrar a força ancestral ao lado da comunidade.
Mais do que um prato típico, a feijoada carrega um sentido simbólico dentro das religiões de matriz africana. A celebração é dedicada a Nkosi, como Ogum se manifesta no candomblé de Angola, tradição seguida pelo Manzo. Ligado ao ferro, à coragem e ao trabalho, Nkosi representa a força que abre caminhos e sustenta o fazer coletivo.
“Ogum, para nós, é o mensageiro e o guardião do território. Nós, enquanto povos quilombolas, carregamos essa tradição de um orixá que protege, que defende e que sustenta o nosso povo. É dessa força, dessa ancestralidade, que vem a nossa resistência”, afirma a makota Cássia Kidoialê.
Para a makota, o alimento ocupa um papel central na relação com o sagrado nas religiões de matriz africana. “Para nós, existe um envolvimento muito forte com a agricultura. Os alimentos também têm um poder medicinal para o nosso organismo”, afirma. A escolha dos ingredientes segue esse entendimento. “O inhame, o feijão preto e os elementos que compõem a feijoada são alimentos ricos em ferro e estão relacionados a Ogum.”
A própria combinação da feijoada reforça esse saber ancestral. “Quando você olha a feijoada, tem o complemento da laranja, que ajuda na absorção do ferro do feijão. A couve também entra nessa composição. Nada ali é aleatório.”
“A feijoada é mais do que um alimento. Ela é um símbolo de união, de força e de continuidade. A gente come junto, reza junto, luta junto e resiste junto. É nessa coletividade que a gente constrói e sustenta o nosso quilombo”, completa.
A reforma da cozinha é um projeto coletivo e um passo importante para a continuidade das atividades do quilombo. “A cozinha, para nós, é um espaço sagrado. É lugar de acolhimento, de partilha e de construção de território. Fortalecer esse espaço é garantir que a nossa ancestralidade continue sendo alimentada”, finaliza.
Sobre o Quilombo Manzo Ngunzo Kaiango
Localizado na periferia de Belo Horizonte, o Quilombo Manzo Ngunzo Kaiango é um dos principais territórios de preservação e promoção da cultura de matriz africana em Minas Gerais. Sob a liderança de Mametu Muiandê, o quilombo se consolidou como referência na articulação entre espiritualidade, ação social e fortalecimento comunitário.
Com forte atuação cultural, social e religiosa, o Manzo mantém vivas práticas da tradição bantu por meio de celebrações, ações comunitárias e iniciativas voltadas ao fortalecimento da identidade negra, do território e da segurança alimentar.
Feijoada solidária de Ogum – Quilombo Manzo
Local: Rua São Tiago, 216 – Santa Efigênia, Belo Horizonte
Data e horário: 19 de abril de 2026 (domingo), das 12h às 20h
Entrada gratuita (retirada via Sympla)
Venda antecipada da feijoada pelo Sympla



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