Artista cria paisagens marcadas por vestígios e sobreposições, em pinturas que colocam em tensão a percepção do tempo
Há algo que parece ter acabado de acontecer nas pinturas da artista Talita Hoffmann. Objetos e fragmentos arquitetônicos se acumulam em paisagens nas quais o movimento sugere uma interrupção no instante seguinte a uma explosão. Não há pessoas, mas os sinais de sua passagem estão por toda parte. É a partir dessa atmosfera que se constrói “Mil maneiras de matar o tempo”, nova exposição da Piccola Galleria da Casa Fiat de Cultura, em cartaz de 6 de outubro a 22 de novembro, com entrada gratuita. A mostra reúne nove pinturas produzidas entre 2024 e 2026 e dá continuidade à pesquisa da artista gaúcha sobre paisagens urbanas e os modos como percebemos e construímos imagens.
Talita Hoffmann se interessa especialmente por espaços abandonados, lugares em transformação nos quais a figura humana desapareceu, embora permaneçam indícios de que alguém esteve ali. “A paisagem está sempre mudando. É como areia movediça, uma paisagem sendo engolida e formando outra. Há um vestígio humano, mesmo com a ausência da figura humana. Parece que existe um movimento pausado”, explica a artista.
Essa percepção se relaciona diretamente com o título da exposição, retirado de uma passagem de “Um homem que dorme”, de Georges Perec, livro que impressionou Talita pela maneira como aborda a renúncia à vida e o esvaziamento de significado das coisas. A expressão “matar o tempo” passou a provocar outras questões em sua produção recente, sobretudo diante da velocidade com que consumimos imagens atualmente. Nas pinturas, essa sensação encontra correspondência em temporalidades que parecem se sobrepor e em imagens que conservam vestígios de momentos distintos.
As paisagens não reproduzem lugares específicos. A artista parte de um banco de referências formado por fotografias feitas por ela, imagens encontradas na internet e frames de filmes. Desse repertório, seleciona formas e reorganiza fragmentos até construir uma nova cena. Sua formação em Design Gráfico também aparece nesse processo, que incorpora recursos do desenho arquitetônico e elementos da comunicação visual cotidiana.
Mesmo diante de cenários que carregam certa desolação, as escolhas cromáticas atraem o olhar e conferem às pinturas uma presença pop. “A cor ajuda a atrair o olhar. Embora as paisagens tenham algo de desolado, ela traz uma dimensão mais pop e cria certa familiaridade com as imagens”, conta Talita. Nos trabalhos mais recentes, a artista também passou a utilizar a tinta acrílica diluída, buscando se afastar da imagem excessivamente plana que marcou momentos anteriores de sua produção.
Para Henrique Menezes, que assina o texto curatorial da exposição, as pinturas de Talita Hoffmann refletem também a velocidade e o excesso de imagens que marcam a vida contemporânea. Em suas composições, cenas e fragmentos se acumulam, mas parecem congelados em um único instante. É dessa combinação que surge o que ele chama de um universo “pop-apocalíptico em slow motion“. “Cada tela mostra-se um twister de desalento e fervor, um registro tão nítido quanto simbólico da aceleração”, completa Menezes.
Bate-papo de abertura da exposição
No bate-papo de abertura da exposição, no dia 6 de outubro, terça-feira, às 19h, Talita Hoffmann conversa sobre seu percurso artístico, as referências que alimentam sua produção e o desenvolvimento dos trabalhos apresentados na Piccola Galleria. Ao compartilhar experiências e aspectos de sua pesquisa, a artista revela como constrói seu olhar sobre a cidade e as imagens do cotidiano. Inscreva-se gratuitamente pela Sympla.
Sobre a artista
Talita Hoffmann (1988, Porto Alegre/RS) vive e trabalha em São Paulo. É graduada em Design Visual pela ESPM e em Artes Visuais pela ECA-USP. Desde 2008, participa de exposições no Brasil e no exterior. Entre suas individuais estão: Um cadáver vai ao cinema (25M, São Paulo, 2023), Areia Movediça (Galeria Lume, São Paulo, 2015) e Cidade do Interior (Galeria Logo, São Paulo, 2013). Participou também de exposições e projetos em instituições e espaços como A Gentil Carioca, Galeria Vermelho, Museu de Arte de Ribeirão Preto e Museu da Imagem e do Som de São Paulo, além do Fumetto International Comix Festival, na Suíça. Entre 2016 e 2021, integrou o grupo de pesquisa Depois do Fim da Arte, vinculado ao Departamento de Artes Visuais da USP. Suas obras integram coleções institucionais e particulares, e a artista atua também como ilustradora e designer.
Piccola Galleria
A Piccola Galleria é um espaço destinado a artistas da cena contemporânea e foi criado em 2016 com o intuito de incentivar a produção nacional e internacional. Situado ao lado do painel “Civilização Mineira”, de Candido Portinari, no hall principal da Casa Fiat de Cultura, o pequeno recinto é destinado a exposições de curta duração, mas com toda a visibilidade que a instituição enseja.
Os artistas que expõem na Piccola Galleria são selecionados por uma comissão de especialistas, que nesta 9ª edição contou com Katia Wille, artista visual e pesquisadora; Giancarlo Hannud, historiador da arte, curador e pesquisador; e Marcel Diogo, artista, professor e curador independente. O processo foi realizado de forma 100% online, de modo a facilitar a inscrição de pessoas de todo o Brasil. No total, mais de 370 trabalhos foram enviados.
A proposta é apresentar e destacar trabalhos inéditos – pinturas, desenhos, gravuras, esculturas, fotografias, instalações, performances e/ou videoarte – de artistas locais, brasileiros ou estrangeiros. Além de Talita Hoffmann, outros cinco artistas foram selecionados no 9º Programa de Seleção da Piccola Galleria, e suas exposições estão sendo exibidas na programação de 2026/2027.
Casa Fiat de Cultura
A Casa Fiat de Cultura cumpre importante papel na transformação do cenário cultural brasileiro, ao realizar prestigiadas exposições. A programação estimula a reflexão e interação do público com várias linguagens e movimentos artísticos, desde a arte clássica até a arte digital e contemporânea. Por meio do Programa Educativo, a instituição articula ações para ampliar a acessibilidade às exposições, desenvolvendo réplicas de obras de arte em 3D, materiais em Braille e atendimento em libras. Mais de 100 mostras, de consagrados artistas brasileiros e internacionais, já foram expostas na Casa Fiat de Cultura, entre os quais Caravaggio, Rodin, Chagall, Tarsila, Portinari entre outros. Há 20 anos, o espaço apresenta uma programação diversificada, com música, palestras, residência artística, além do Ateliê Aberto – espaço de experimentação artística – e de programas de visitas com abordagem voltada para a valorização do patrimônio cultural e artístico. A Casa Fiat de Cultura é situada no histórico edifício do Palácio dos Despachos e apresenta, em caráter permanente, o painel de Portinari, Civilização Mineira, de 1959. O espaço integra um dos mais expressivos corredores culturais do país, o Circuito Liberdade, em Belo Horizonte. Mais de 5 milhões de pessoas já visitaram suas exposições e 800 mil participaram de suas atividades educativas.
Exposição “Mil maneiras de matar o tempo”, de Talita Hoffmann, na Casa Fiat de Cultura
Período expositivo: 6 de outubro a 22 de novembro de 2026
Visitação presencial: terça-feira a sexta-feira das 10h às 21h; sábados, domingos e feriados, das 10h às 18h (exceto segundas-feiras)
Tour virtual no site: www.casafiatdecultura.com.br
Bate-papo de abertura da exposição com a artista Talita Hoffmann
6 de outubro, terça-feira, às 19h, na Casa Fiat de Cultura
Inscreva-se gratuitamente pela Sympla
Toda programação da Casa Fiat de Cultura é gratuita
Casa Fiat de Cultura
Praça da Liberdade, 10 – Funcionários – BH/MG
Circuito Liberdade
Horário de Funcionamento
Terça-feira a sexta-feira, das 10h às 21h
Sábado, domingo e feriado, das 10h às 18h



Adicionar Comentários