Exposição no CCBB BH reúne artistas, arquitetos, curadoria e especialistas em acessibilidade em um processo colaborativo que transforma a obra do multiartista mineiro em uma experiência imersiva
Toda exposição nasce de um encontro entre diferentes olhares. Em Asa de Papel – Marcelo Xavier, em cartaz no Centro Cultural Banco do Brasil Belo Horizonte (CCBB BH), esse princípio ganha dimensão concreta ao reunir artistas visuais, arquitetos, muralistas, pesquisadores e especialistas em acessibilidade na construção de um percurso que convida o público a atravessar o universo criativo de Marcelo Xavier. Mais do que apresentar livros, ilustrações e esculturas produzidas ao longo de mais de quatro décadas, a mostra transforma processos de criação, memórias, personagens e rascunhos em uma experiência espacial que amplia as fronteiras entre literatura, artes visuais e interação com o visitante.
A proposta foi conduzida pelo curador Marconi Drummond, que reuniu profissionais cujas pesquisas dialogam com diferentes aspectos da trajetória de Marcelo Xavier. Segundo ele, a intenção foi expandir a linguagem construída pelo artista sem perder sua essência. “Marcelo Xavier criou uma linguagem única no Brasil. Sua produção transforma o livro em espaço de encontro entre arte, literatura, educação, cultura popular e experiência sensorial. A exposição foi pensada como um território de convivência e imaginação, onde o visitante deixa de ser apenas espectador para tornar-se participante ativo das narrativas e experiências propostas.” A ideia orientou todas as etapas do projeto, da arquitetura expositiva às instalações criadas especialmente para a mostra.
Essa tradução do universo literário para o espaço começou ainda na fase de concepção, conduzida pela WNarquitetura. Clarissa Neves, Paulo Waisberg e Marcella Oliveira partiram de uma leitura aprofundada da obra de Marcelo Xavier para desenvolver um percurso capaz de conduzir o visitante por diferentes atmosferas. Os primeiros desenhos foram feitos à mão e serviram como base para estudos tridimensionais, simulações e sucessivas revisões técnicas. “Entendemos que o visitante não deveria apenas observar a obra de Marcelo, mas atravessar os universos criados por ele”, explica a equipe. A cenografia, as projeções, os sons e as instalações foram articulados para construir uma narrativa contínua, preservando a singularidade de cada ambiente sem romper a unidade da exposição.
Entre as intervenções criadas especialmente para esse percurso está a instalação do muralista Mateus Dias, responsável pela ambientação da sala “Caverna”. Acostumado a trabalhar em grandes formatos, o artista encontrou afinidades entre sua pesquisa e a produção de Marcelo Xavier, especialmente no uso das cores e na criação de personagens. “Foi muito interessante transformar um desenho originalmente feito com canetinhas, em pequenas proporções, em uma instalação parietal de grande escala, preservando sua força e seu caráter lúdico”, afirma. Para ele, um dos momentos mais marcantes da visita é a passagem da sala Caverna para a instalação “Nhe’ẽ ry”, quando a expografia cria a sensação de que os personagens deixam as páginas dos livros para ocupar o espaço ao redor do público.
Na instalação “Nhe’ẽ ry”, Leo Piló assina a floresta, cuja pesquisa artística com o papelão encontrou na obra de Marcelo Xavier um território de diálogo. Inspirada no livro Mitos, a instalação utiliza um material cotidiano para construir uma paisagem que convida à exploração. “A reciclagem e a literatura se encontram em diversos momentos da trajetória de Marcelo Xavier. A utilização do papelão nesta instalação reforça essa aproximação, unindo um material reciclável ao imaginário construído pelo autor”, explica o artista. Ao caminhar pelo ambiente, o visitante é convidado a descobrir imagens e narrativas escondidas entre a vegetação cenográfica e os seres encantados, estes criados por outro artista da exposição. “Espero despertar no público uma curiosidade ainda maior pelas imagens e pelas narrativas inseridas na mata”, completa.
A dimensão coletiva da exposição também se manifesta no trabalho desenvolvido por Syl Triginelli e Dan Neres. Amigos e parceiros desde a Escola de Belas Artes da UFMG, os artistas produziram cerca de 70 monotipias em grande formato que dialogam com o bloco Todo Mundo Cabe no Mundo e com o núcleo Tem de Tudo Nesta Rua. A colaboração nasce de pesquisas construídas a partir das vivências dos próprios artistas sendo pessoas com deficiência e pela pesquisa em torno da imagem impressa. “Nosso trabalho é a materialização de uma colaboração construída em ateliê”, resume Syl. Incorporada ao projeto nos meses finais antes da abertura, a participação da dupla exigiu um intenso processo de criação em curto prazo, mas consolidou um dos espaços que sintetizam a proposta de convivência presente em toda a exposição.
Perceber em plural
Essa ideia de convivência também orientou a construção da acessibilidade, incorporada desde o início do projeto como princípio curatorial e expográfico. Responsável por esse eixo da mostra, Luciana Miglio explica que o objetivo nunca foi criar recursos paralelos destinados apenas a um grupo específico de visitantes. “A acessibilidade e o desenho universal não entraram no projeto como um complemento ou uma adaptação posterior. Eles fizeram parte da concepção da exposição desde o início, transformando a maneira de pensar os acervos, o percurso, a comunicação e a relação do visitante com a mostra.” A partir do conceito de “perceber em plural”, a exposição reúne audiodescrição, Libras, Braille, objetos táteis, guia multissensorial, textos em linguagem simples, fonte ampliada e alto contraste, permitindo diferentes formas de aproximação com os conteúdos.
Para Luciana, o maior desafio foi fazer com que esses recursos integrassem a própria narrativa da exposição. “Em vez de criar soluções paralelas ou complementares, buscamos incorporá-los à expografia e à narrativa curatorial. Dessa forma, conteúdos em áudio e Libras, objetos táteis, sinalização e tecnologias assistivas passam a ampliar a experiência de todos os visitantes.” Ao reunir arquitetura, artes visuais, literatura, cenografia, muralismo, gravura e acessibilidade em uma mesma construção coletiva, Asa de Papel evidencia que o universo criado por Marcelo Xavier continua em permanente transformação. Mais do que apresentar uma trajetória artística, a mostra propõe uma experiência compartilhada, em que diferentes linguagens se encontram para reafirmar a imaginação como espaço de criação, pertencimento e encontro.
Exposição: Asa de Papel – Marcelo Xavier
Local: Galerias do Térreo – Centro Cultural Banco do Brasil Belo Horizonte (CCBB BH)
Período: 1° de julho a 12 de outubro de 2026
Horários: Quarta-feira a segunda-feira, das 10h às 22h
Endereço: Praça da Liberdade, 450 – Funcionários, Belo Horizonte
Classificação: Livre
Entrada: Gratuita, mediante retirada de ingresso pelo site ccbb.com.br/bh e na bilheteria do CCBB BH
Instagram: @ccbbbh Facebook: /ccbbbh



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