Filme de Ana Luísa Cosse e Marina Araújo estreia com exibição gratuita em Ibertioga no dia 25 de abril e chega ao YouTube no dia 30
Em Minas Gerais, os Congados e Reinados atravessam o tempo como uma das expressões mais vivas da cultura afro-brasileira no estado. Presentes em diferentes regiões mineiras e reconhecidos, desde 3 de agosto de 2024, como Patrimônio Cultural Imaterial de Minas Gerais, eles reúnem fé, memória, música, rito e pertencimento em celebrações que mantêm vivo um legado construído por comunidades negras ao longo de gerações. É desse território simbólico, religioso e cultural que parte “Sá Rainhas”, documentário de Ana Luísa Cosse e Marina Araújo que volta o olhar para um fundamento muitas vezes menos visível dessa tradição: a presença feminina.
O filme será lançado no dia 25 de abril de 2026, sábado, às 19h30, na Sede da Sociedade Musical Lira Santo Antônio, na Praça do Rosário, em Ibertioga (MG). A exibição pública será gratuita e contará com a presença das cinco protagonistas e da equipe de produção. A partir de 30 de abril, o curta ficará disponível por 90 dias no YouTube. A obra acompanha as rainhas da Banda Dançante de Congada e Moçambique Nossa Senhora do Rosário e das Mercês, uma das mais antigas manifestações culturais da Zona da Mata mineira e reconhecida como patrimônio imaterial de Ibertioga.
As cinco entrevistadas — Sá Rainha Andreza Márcia da Silva, Sá Rainha Iasmim Alice, Sá Rainha Joana D’Arc da Silva, Sá Rainha Maria Francisca de Jesus e Sá Rainha Yonara Tavares Campos — representam gerações distintas de mulheres que dedicam a vida à devoção a Nossa Senhora do Rosário e a Nossa Senhora das Mercês. Unidas pela fé, vestem-se como rainhas durante a Festa do Rosário e carregam nos corpos, nos gestos e nos cantos um legado de espiritualidade, ancestralidade e força feminina que atravessa o tempo e sustenta uma das expressões culturais e religiosas mais significativas da região.
O documentário nasceu da percepção das diretoras de que as narrativas sobre o Congado de Ibertioga sempre foram contadas a partir de uma perspectiva masculina. “Conhecemos a história da Banda Dançante de Congada e Moçambique Nossa Senhora do Rosário por meio da Sá Rainha Iasmim Alice. Nossos caminhos se cruzaram em trabalhos artísticos realizados em Belo Horizonte. Nos encantamos pela história das várias Sá Rainhas que existem no Reinado de Ibertioga e, principalmente, pela intergeracionalidade que há entre elas”, conta a diretora Marina Araújo.
Os Congados e Reinados mineiros entrelaçam canto, dança, cortejo, devoção e memória em celebrações que atravessam gerações e ocupam lugar singular na cultura afro-brasileira do estado. Ligada às irmandades do Rosário, essa tradição permanece viva em todas as regiões de Minas, com mais de 900 cadastros de guardas ou ternos já reunidos pelo Iepha-MG — número que, segundo o próprio instituto, não esgota a dimensão dessa presença no território mineiro. Em Ibertioga, esse universo ganha contornos próprios na Festa do Rosário e na continuidade de uma irmandade que mantém viva essa herança no cotidiano da cidade.
Diferentemente dos Reinados da capital mineira, Ibertioga abriga dezenas de rainhas de promessa — mulheres que dedicam toda uma vida à devoção. “Soubemos que as narrativas sobre o Congado de Ibertioga sempre foram masculinas e, então, pensamos: o que essas mulheres, rainhas, teriam a nos contar sobre esse Reinado? Quais são as suas histórias? Isso nos motivou a gravar um documentário em que essas mulheres, que são um dos pilares da Irmandade de Ibertioga, fossem protagonistas e tivessem suas vozes e histórias em destaque”, explica a diretora Ana Luísa Cosse. Para ela, “Sá Rainhas” é “um filme que vai além de histórias individuais e mostra todo o legado de fé, de força e de pertencimento dessas mulheres”.
O protagonismo feminino no Congado
Historicamente, as mulheres ocuparam papéis considerados secundários nas irmandades: cuidavam da organização das festas, da manutenção das fardas dos congadeiros, do preparo dos alimentos e da organização financeira dos grupos. Com o tempo, conquistaram espaço como capitãs, caixeiras e coordenadoras, passando a dançar nas fileiras ao lado dos homens. Em Ibertioga, tornaram-se um dos pilares da tradição, detentoras de um saber profundo sobre os fundamentos, os cantos e os rituais que sustentam a festa em honra a Nossa Senhora do Rosário.
Com mais de 120 anos de existência, a Banda Dançante de Congada e Moçambique Nossa Senhora do Rosário reúne hoje cerca de 130 integrantes, entre homens e mulheres de diversas faixas etárias, todos negros e ligados por laços de parentesco. Formada originalmente por filhos e netos de pessoas escravizadas nas fazendas da região, a tradição permanece viva e atrai visitantes de diversas localidades de Minas Gerais durante a festa anual realizada em setembro.
Sobre as diretoras
Ana Luísa Cosse e Marina Araújo têm trajetória consolidada no audiovisual mineiro e já assinaram juntas trabalhos premiados nacional e internacionalmente. Em “O Bastão e o Rosário” (2017), Ana dirigiu e Marina foi roteirista e diretora de produção; a obra recebeu menção honrosa no CineBaru – Mostra Sagarana de Cinema (MG, 2019), venceu o Festival Cine Tamoio na categoria melhor figurino (RJ, 2020) e foi contemplada pelo prêmio Arte Salva, da Secult-MG (2020). Em “A Luta das Auras” (2022), com direção de Marina e fotografia de Ana, a dupla conquistou o Prêmio Pretas Potências (SP, 2023), foi selecionada no Festival Lift-Off Global Network (Reino Unido, 2023), recebeu a Premiação de Obras e Empresas do Audiovisual Mineiro – Lei Paulo Gustavo, da Secult-MG (2023), chegou à semifinal do Woman Life Freedom Festival (Irã, 2024) e foi exibida no Golden Femi Film Festival (Bulgária, 2025). Juntas, também dirigiram “Seu Vicente: o marcador de São Gonçalo” (2024) e “Folia de Reis: Grupo Aruanda” (2024), exibidos em mostras nacionais.
Lançamento do documentário “Sá Rainhas”
Horário: 25 de abril de 2026 (sábado), às 19h30
Local: Sede da Sociedade Musical Lira Santo Antônio – Praça do Rosário, Centro, Ibertioga (MG)
Estreia no YouTube: 30 de abril de 2026 (quinta-feira), com disponibilidade por 90 dias
Duração: 12:05 min
Classificação: Livre
Patrocínio: Edital FEC 03/2024, Minas Literária, do Fundo Estadual de Cultura da Secretaria de Estado de Cultura e Turismo de Minas Gerais



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