Antes de serem classificados, codificados ou organizados em técnicas, os molhos já existiam como forma de dar sabor, conservar e transformar os alimentos. Da Roma Antiga aos preparos medievais, passando pelas cozinhas regionais que atravessaram séculos, o molho sempre foi uma ferramenta de identidade culinária.
Hoje, longe de uma função apenas decorativa, molhos, condimentos e conservas voltam a ocupar o centro do prato. São eles que conectam ingredientes, trazem memória, território e intenção. Em Belo Horizonte, esse movimento aparece com clareza em cozinhas que usam o molho como pensamento e não como acabamento.
No Rivo, essa lógica se expressa em pratos onde o molho é parte estrutural da receita. No peixe do dia servido com purê de couve flor e mexilhão, a gremolata entra como contraponto fresco. De origem italiana, feita tradicionalmente com salsa, alho e raspas de limão, ela traz acidez e vivacidade ao prato, equilibrando a untuosidade do purê e o sabor marinho do mexilhão. A laranja e o coentro completam o conjunto, ampliando o frescor.
Já no assado de tira preparado na parrilla, o romesco aparece ao lado do chimichurri e do pão da casa. De origem catalã, o romesco é um molho denso feito a partir de tomate, pimentão, alho, castanhas ou amêndoas, pão e azeite. Tradicionalmente associado a peixes e legumes grelhados, ele entra aqui como camada profunda e levemente defumada, dialogando com a carne e com o fogo da grelha.
Na Casa Gabo, o molho é protagonista absoluto. O espeto de sobrecoxa ao mole negro traz o clássico molho mexicano como eixo do prato. O mole é um preparo complexo, construído a partir de pimentas secas, especiarias, sementes e cacau, resultado de tempo, técnica e tradição. Denso e intenso, ele envolve o frango grelhado no espeto, enquanto os picles de maxixe entram como contraponto de acidez e frescor, equilibrando sabores marcantes e criando tensão entre potência e leveza.
A lógica da preservação aparece nas geleias do Casulo. Na bruschetta com queijo maturado do Cerrado e presunto cru caipira maturado, a geleia de figo com baunilha do Cerrado não é apenas acompanhamento. Ela conecta sal e doce, gordura e frescor, trazendo profundidade e um gesto de cuidado que remete às técnicas ancestrais de conservação, quando açúcar e tempo eram ferramentas fundamentais da cozinha.
O vinagrete, um dos molhos mais populares do Brasil, também ganha novas leituras. Presente em churrascos, mesas familiares e cozinhas do dia a dia, ele aparece na A Casa da Agnes nos charutinhos de taioba e galinha caipira. Aqui, a chef imprime seu toque autoral ao incorporar a cachaça ao preparo, acrescentando profundidade e identidade brasileira ao molho que acompanha o prato.
Na Cozinha Santo Antônio/ Puxadinho, a maionese segue caminho semelhante. Preparação clássica e amplamente difundida, ela ganha outro significado ao receber o pequi, fruto emblemático do Cerrado. O Pastel da Cozinha Santo Antônio leva recheio de peito de boi Curraleiro Pé Duro desfiado com requeijão moreno e é servido com a maionese de pequi, que adiciona aroma, território e memória ao prato, funcionando como extensão direta da cozinha de Ju Duarte.
Entre molhos de origem ancestral e releituras contemporâneas, esses exemplos mostram como condimentos e conservas seguem sendo uma das formas mais potentes de expressão culinária. Não apenas para finalizar, mas para estruturar o prato, contar histórias e revelar a identidade de quem cozinha.
Rivo
Rua São Paulo, 2514 – Lourdes, Belo Horizonte
Funcionamento: terça a sexta, 19h às 23h30; sábados, 12h às 15h e 19h às 23h30
Instagram: @rivo.bh
Capacidade: 68 lugares + balcões
Cozinha Santo Antônio
Rua São Domingos do Prata, 453 – Santo Antônio, Belo Horizonte
Funcionamento:
Terça a sexta, das 12h às 15h
Sábados, domingos e feriados, das 12h30 às 17h
Quintas e sextas, das 19h às 23h@cozinhasantoantonio
A Casa da Agnes
Rua Paulo Afonso, 833 – Santo Antônio, Belo Horizonte
Almoços: terça a sábado, de 12h às 15h
Eventos fechados para até 60 pessoas
Informações e delivery: (31) 98738-7066
@acasadaagnes
Gabo
Avenida Cristóvão Colombo, 336, Savassi, Belo Horizonte
Terça e quarta, das 18h às 23h
Quinta e sexta, das 18h à meia-noite
Sábado, das 12h à meia-noite
@casa.gabo.bh
Casulo – Restaurante e experiências
Rua Olhos d’Água, 01 – Lapinha da Serra, Santana do Riacho
Funcionamento: terça a domingo
Reservas e informações: (31) 98408-0368 | casulolapinhadaserra@gmail.com
Instagram: @casulolapinhadaserra




Adicionar Comentários