Cuidado com a pegadinha do “Reservado”!

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Por Joelma Matos  

Tem coisa que parece elogio, mas é cilada. Igual aquele “amigo” que diz: “Nossa, você está ótima para a sua idade”. No mundo do vinho, o equivalente é a palavrinha mágica que vive estampada nas prateleiras dos supermercados: “reservado”. Tem cara de coisa especial, jeito de algo exclusivo, mas, na prática, quase sempre é o contrário: é o vinho mais simples da vinícola, aquele de entrada, pensado para ser barato e fácil de beber. Enquanto isso, outros dois termos bem parecidos: Reserva e Gran/Grande Reserva, normalmente sinalizam vinhos com mais cuidado, mais tempo de maturação e, em muitos casos, mais complexidade. Resultado? Muita gente confunde tudo. Então, taça na mão que hoje o papo é para desarmar essa pegadinha do bem marketing e te ajudar a escolher com mais segurança (e zero frescura). 

Aqui vai uma verdade que pouca gente conta: “Reserva” e “Gran/Grande Reserva” não significam exatamente a mesma coisa em todo lugar. Em alguns países, esses termos são definidos por regras: o vinho precisa ficar mais tempo descansando, às vezes passar por barrica, ter uvas mais selecionadas, essas coisas. Em outros, a palavra é usada com um pouquinho mais de liberdade, mas a ideia geral costuma ser a mesma: ficar acima do vinho básico da vinícola, ter mais cuidado na produção e, em muitos casos, um pouco mais de corpo e complexidade. De forma bem resumida, quando você vê “Reserva” ou “Gran/Grande Reserva”, a mensagem que o produtor quer passar é: “Este aqui é um degrau acima do nosso vinho de todo dia”. Não é um selo de perfeição, mas geralmente indica mais atenção e, às vezes, mais estrutura, principalmente quando comparado à linha mais simples da casa. 

Agora chegamos ao protagonista desta coluna: o “Reservado”. Esse termo, que aparece demais em rótulos de grandes vinícolas, costuma significar justamente o contrário do que o consumidor imagina. Enquanto muita gente pensa: “Reservado? Nossa, deve ser algo especial, que eles separaram com carinho!”, na realidade, em boa parte dos casos ele indica uma linha mais simples, feita para volume, preço baixo e alta circulação em supermercado. É quase sempre o rótulo de entrada da vinícola, feito para ser leve, fácil de beber, barato e nem um pouco pensado para guarda ou grandes complexidades. Em outras palavras, é um termo 90% marketing, 10% poesia. Isso não quer dizer que é um vinho necessariamente ruim. Ele pode cumprir muito bem o papel de vinho do churrasco, da pizza com os amigos, da sangria bem gelada ou daquele dia em que o orçamento manda mais que o sommelier interior. 

O problema não é o vinho em si, é a confusão que o rótulo causa. Muita gente coloca “reservado” no mesmo patamar de “reserva” ou “grande reserva” e sai achando que levou algo especial para casa, quando, na verdade, levou o vinho mais básico da linha, só que vestido com roupa de gala de supermercado. Para não cair nessa pegadinha e beber com mais consciência (e sem ilusão), vale a pena ir além da palavrinha estampada em letras gigantes na frente da garrafa e prestar atenção a alguns detalhes. Em vez de se deixar seduzir só pelo “reservado”, olhe o produtor, a região, a safra (quando estiver indicada) e, principalmente, o preço, pois ele quase sempre entrega o jogo. Se o rótulo fala bonito, parece sofisticado, mas custa menos do que a água com gás do restaurante, é muito provável que tenha sido pensado para ser simples e acessível, e não para ganhar medalha de ouro em concurso. 

Em muitas vinícolas, a lógica é mais ou menos assim: a linha de entrada recebe nomes como “Reservado”, “Classic”, “Selection” e por aí vai. Depois vêm os “Reserva”, que costumam ocupar o meio do caminho entre o vinho básico e as linhas de topo. Acima deles, aparecem os “Gran/Grande Reserva” ou outros rótulos com nomes pomposos, que normalmente querem comunicar mais estrutura, mais tempo de maturação e um cuidado especial. Saber em qual degrau da escada está o vinho que você está comprando ajuda a ajustar a expectativa e evitar frustrações. 

Agora, uma coisa importante: “Reservado” não é palavrão. Ele pode ser perfeito para fazer drinks com vinho, como spritz de tinto, clericot ou sangria bem gelada. Também pode ser a alternativa viável naquele churrasco de 20 pessoas, em que você quer quantidade, descontração e ninguém analisando tanino com expressão séria. Sem falar na cozinha: um tinto simples pode ser ótimo para um molho, um risoto ou para marinar carnes, sem dó de colocar na panela. A melhor regra é usar o reservado com a função certa, sem esperar que ele se comporte como um grande reserva super elaborado. 

Então, da próxima vez que você cruzar com um “Reservado” na prateleira, lembre-se: ele não é um vilão, mas também não é um tesouro escondido. É apenas o vinho de entrada vestido com roupa de gala de supermercado. Brinde com ele se a proposta for descontraída e o bolso pedir leveza. Quando quiser algo com mais camadas e estrutura, aí vale explorar os Reservas e Grandes Reservas, sempre com um olho no produtor, outro na ocasião e os dois olhos bem atentos à taça. Porque, no fim, é nela que a história acontece. 

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