A abertura da sala de cinema independente Cine Graciano movimentou a Rua Itapecerica e seu entorno. Com uma programação diversa e reflexiva, o projeto apresenta as últimas sessões do ano, nos dias 16, 17 e 18
Na terça-feira, 16 de dezembro de 2025, às 19h, haverá a exibição do documentário Diz a ela que me viu chorar, dirigido por Maíra Bühler. O documentário traz para a narrativa o albergue Dom Pedro em São Paulo abriga 107 residentes sem-teto de comunidades marginalizadas, muitos dos quais lutam com constantes ameaças de despejo. Com suas próprias histórias pessoais cheias de solidão e desgosto, estes são indivíduos que ainda assim lutam pela vida em solidariedade. Após a sessão haverá um debate com a Frente Mineira Drogas e Direitos Humanos.
Sessão extra – Na quarta-feira, 17, às 19h, teremos uma exibição extra do filme Pele, de Marcos Pimentel, com várias cenas do filme filmadas na Lagoinha e adjacências. O filme apresenta a interação entre os habitantes das cidades brasileiras e o que está expresso em seus muros e paredes. Grafites, pichações, símbolos indecifráveis, palavras de ordem, hieróglifos, declarações de amor. As narrativas urgentes das ruas que expressam as subjetividades dos mais variados discursos visuais que “vestem” as cidades brasileiras emergem neste documentário.
Na quinta-feira, dia 18 de dezembro às 15h, teremos uma sessão com três curta-metragens dirigidos por mulheres: Chão de Fábrica, de Nina Kopko, Estado Itinerante, de Ana Carolina Soares, e Mandinga, de Mariana Starling. Em Chão de Fábrica, um filme de ficção, o ano é 1979, as máquinas desligam para o horário do almoço dentro de uma metalúrgica de São Bernardo do Campo. Quatro operárias comem dentro do banheiro feminino e entre risos e conflitos, cada uma guarda o seu segredo. Já em Estado Itinerante, Vivi quer escapar de uma relação opressora. A narrativa de ficção traz a história do período de experiência de Vivi como cobradora de ônibus. Ela trabalha desejando não voltar para casa. A semana passa rápido, entre as paradas no ponto final e o itinerário os encontros com outras cobradoras fortalecem a mulher trabalhadora e seu desejo de fuga. Em Mandinga, um filme de ficção de 2025, a narrativa é o sonho mais íntimo de Joana – amar e ser amada se torna uma feitiçaria afrontando a existência como ela é. No abismo da imaginação pode surgir o trauma do real ou a coragem para enfrentá-lo.
E, para encerrar a programação de 2025, no mesmo dia, às 19h, a exibição do filme Sementes: Mulheres Pretas no Poder, dirigido por Éthel Oliveira e Júlia Mariano. O documentário acompanhou mulheres, em suas campanhas, mostrando que é possível uma nova forma de se fazer política no Brasil, transformando o luto em luta. Em resposta à execução de Marielle Franco, as eleições de 2018 se transformaram no maior levante político conduzido por mulheres negras que o Brasil já viu, com candidaturas em todos os estados. No Rio de Janeiro, Mônica Francisco, Rose Cipriano, Renata Souza, Jaqueline de Jesus, Tainá de Paula e Talíria Petrone se candidataram aos cargos de deputada estadual ou federal. A sessão será comentada por Áurea Carolina e a mediação estará a cargo de Jozeli Rosa.
SOBRE O CINE GRACIANO E A LAGOINHA
O espaço do Cine Graciano conta com 48 lugares e estrutura para exibição de produções cinematográficas em diferentes formatos. A proposta do espaço é priorizar filmes que pautem os direitos humanos e a democracia, a reflexão crítica sobre as desigualdades sociais, a promoção de mulheres, pessoas negras, indígenas, periféricas e LGBTQIAPN+, a cultura popular, os movimentos urbanos, a arte independente, a vida nas grandes cidades, suas diversidades, riquezas humanas e contradições cotidianas.
A Lagoinha, um dos bairros operários mais antigos de Belo Horizonte, carrega em suas ruas a memória da construção da capital e um passado de resistência cultural. Conhecida como a “Pequena África” de BH, foi um reduto fundamental para a população negra, cuja história, embora frequentemente apagada, luta para se manter viva. A paisagem do bairro foi radicalmente transformada com a construção da Rodoviária e do Complexo da Lagoinha, intervenções que fragmentaram sua comunidade. Apesar disso, sua alma boêmia e cultural nunca se apagou, pulsando na memória da Praça Vaz de Mello, berço do samba e palco do lendário bloco de Carnaval Leão da Lagoinha. Hoje, esse bairro de efervescência histórica vive um importante processo de retomada, a partir de iniciativas como o movimento Viva Lagoinha. Mas também convive com a dura realidade de muitas pessoas em situação de rua, refletindo as contradições da cidade que ajudou a construir.
SOBRE A FILME DE RUA
A Filme de Rua tem suas primeiras movimentações em 2010, a partir de rodas de conversa organizadas pela psicanalista Joanna Ladeira com jovens que tinham as ruas como espaço de moradia e vivência, entre eles Hugo, Maíra, Samuel, Lelo, Alexander. Inicialmente, os encontros ocupavam o antigo espaço Miguilim e depois o Viaduto Santa Tereza. Em 2015, esse grupo informal consolidou-se como um coletivo – integrado também por Joanna, Ed Marte, Daniel Carneiro, Guilherme Melo, Paula Kimo e Zi Reis, – com o objetivo de ver e fazer filmes, junto a essa juventude. Foi produzido o curta-metragem “Filme de Rua” (2017), premiado em festivais pelo país. Com o tempo, outras pessoas passaram a integrar o coletivo e, mais tarde, a Associação.
A produção colaborativa tornou-se método, criando um espaço de expressão e aprendizado que resultou em outros curtas como “Maloca”, “Chuá de Maloqueiro” e dois longas, “Pérola” e “Ficção tipo real”, atualmente em fase de finalização. Em 2019, com projetos premiados no Rumos Itaú Cultural, o coletivo formalizou-se como Associação Cultural e ocupou sua primeira sala de cinema no Edifício Sulamérica, inaugurando a ocupação cultural desta localidade no centro da cidade. O espaço tornou-se pólo cultural, hospedando debates, seminários, mostras e exibições, fechando as suas portas em 2023 e hoje revivendo com a iniciativa do Cine Graciano
QUEM FOI HUGO GRACIANO
A sala de cinema tem, em seu nome, uma homenagem a Hugo Graciano, um dos jovens com trajetória marcante junto à Filme de Rua, participante do coletivo desde o seu início, e que partiu em março de 2024, com apenas 26 anos. Conhecido por sua persistência, alegria, amizade e criatividade, ele atuou como artista, criador e mobilizador da Filme de Rua. Também é pai do Samuel e atuou como redutor de danos no Consultório de Rua, da PBH. Aos 7 anos, Hugo encontrou-se em situação de rua, onde viveu por muitos anos. Ao longo da vida, ele se tornou uma força positiva para muitas pessoas. Agora, a Filme de Rua celebra a sua vida e o homenageia, com a criação do Cine Graciano.
SESSÃO DE FILMES
Na noite de inauguração, a sala vai receber dois curtas-metragens e uma conversa com os realizadores. Filme sem querer, de Lincoln Péricles, é uma produção de gênero híbrido que se passa durante a pandemia de Covid-19. A narrativa conta a história de um coletivo de cinema de quebrada que recebe uma proposta: uma instituição que lucra com recursos públicos destinados a comunidades marginalizadas quer contratá-los para um projeto que retrata sua marca como aliada da cultura da favela. Dividido entre a sobrevivência financeira e a integridade política, o coletivo precisa decidir: vender sua imagem ou encontrar uma forma de subverter a encomenda?. Já Roubar um Plano, dirigido por Linconl e também por André Novais, mostra um dia na vida de Renato e Adriano. Os dois resolvem não trabalhar e andam pelas ruas do Capão, enquanto uma equipe de cinema rouba alguns planos.
Lincoln Péricles, vulgo LK, é cineasta, roteirista e produtor nascido no Capão Redondo, periferia de São Paulo. Sua obra já passou por festivais como Doclisboa, FICValdivia, NFMLA e FID Marseille, além de instituições como o Centre Pompidou e o Instituto Moreira Salles. Foi contemplado pelo William Greaves Fund (EUA) e participou de residências e mostras em países como França, México, Portugal e Quênia. Entre seus trabalhos recentes estão Mutirão: O Filme (2022) e Meu Amigo Pedro MIXTAPE (2024). André Novais Oliveira – Nascido em 1984. É formado em História pela PUC-Minas e em Cinema pela Escola Livre de Cinema/BH. É sócio-fundador da produtora Filmes de Plástico junto com Gabriel Martins, Maurilio Martins e Thiago Macêdo Correia. Dirigiu os curtas FANTASMAS, POUCO MAIS DE UM MÊS e QUINTAL, e os longas ELA VOLTA NA QUINTA, TEMPORADA e O DIA QUE TE CONHECI.
16 de dezembro, terça-feira
19h
Exibição do documentário Diz a ela que me viu chorar (São Paulo, 2025, 84′) de Maíra Bühler
Sessão comentada pela Frente Mineira Drogas e Direitos Humanos
(sessão extra)
17 de dezembro, quarta-feira
19h
Exibição do documentário Pele (Minas Gerais, 2023, 75′), de Marcos Pimentel
18 de dezembro, quinta-feira
Sessão da tarde – 15h
Chão de Fábrica (São Paulo, 2021 SP 24′. Ficção), de NIna Kopko
Estado Itinerante (Minas Gerais, 2016, 27′, Ficção), de Ana Carolina Soares
Mandinga (Minas Gerais, 2025, 15′, Ficção), de Mariana Starling
18 de dezembro – 19h
Sementes: Mulheres Pretas no Poder (2020, Rio de Janeiro, 105′, Doc), de Éthel Oliveira e Júlia Mariano
Sessão comentada por: Áurea Carolina; Mediação: Jozeli Rosa
Rua Itapecerica, 468, Lagoinha
Entrada gratuita
Informações: instagram.com/filmederua
Rua Itapecerica, 468, Lagoinha
Entrada gratuita
Informações: instagram.com/filmederua




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