Bloco que mistura cumbia e outras latinidades desfila no sábado de pré-Carnaval, dia 7/2, com temática que enaltece a capacidade do brasileiro em transformar seus desafios em combustível criativo e político, por meio da arte, da gambiarra e do humor
Como um gesto antropofágico, o brasileiro se alimenta de suas referências latino-americanas e digere seus ritmos, suas cores, seu realismo mágico, suas culturas, suas danças e suas espiritualidades, desenvolvendo algo genuinamente próprio, mas que ao mesmo explode fronteiras e dialoga diretamente com a realidade de hermanos e hermanas vizinhos, sudacas, e de latinos de outros cantos del mundo, como da América Central e do Caribe (se registre o portunhol!). Uma América tropical e criativa, que se reinventa devorando afetos e sonoridades – como no caso do bloco Cómo te Lhama?, que desde 2017 aposta na mistura entre Carnaval, cumbia, ritmos brasileiros e outras latinidades.
Neste ano, o bloco leva às ruas de Belo Horizonte o tema “Cumbia Brasilis: Reantropofagia Tropical”, propondo uma releitura do Movimento Antropofágico que vira-se para América Latina e se retroalimenta de suas próprias referências. Com participações de artistas nacionais como Saulo Duarte (PA) e Di Ferreira (CE), além de muitas novidades no repertório, o cortejo acontece no sábado de pré-Carnaval, dia 7 de fevereiro, a partir das 13h, na Rua Gomes Pereira, entre os números 209 e 191, no bairro Boa Vista.
O desfile do bloco Cómo te Lhama? em 2026 é viabilizado pela Lei Estadual de Incentivo à Cultura de Minas Gerais, com patrocínio da Cemig.
Artes, gambiarras e alegrias cotidianas
Na proposta conceitual do Cómo te Lhama? o filtro de barro, a cadeira de bar, o copo lagoinha, o espelhinho laranja e o vira-lata caramelo tornam-se ícones de uma alegria nacional cotidiana – além de sugestões de fantasias para foliões e batuqueiros. “Assim como latinos de outros países, o brasileiro sabe transformar o cotidiano em combustível criativo, estético e político por meio desses símbolos afetivos que compõem suas paisagens. A arte, a criatividade e o humor sempre foram nossas ferramentas de sobrevivência. Em momentos de crise social, política e econômica, é justamente essa capacidade de se reinventar, de rir e de perceber beleza mesmo no caos que nos mantém de pé. O carnaval, nesse sentido, não é fuga. É catarse coletiva, afirmação de vida”, afirma a diretora de arte do Cómo te Lhama?, Nancy Mora Castro, uma costarriquenha mineira.
“Propomos uma festa que reconhece, honra e reimagina as trocas culturais latino-americanas, transformando tudo em potência coletiva. ‘Cumbia Brasilis’ é movimento, mistura e celebração sem fronteiras”, completa Nancy, ressaltando que o tema se subdivide em três eixos, para sugerir personagens e fantasias. “O primeiro é ‘Abaporu Reinventado’. Nele, cabem releituras da famosa pintura de Tarsila do Amaral. Corpos alongados, pés e mãos desproporcionais, e uma paleta vibrante inspirada no universo tarsiliano. É o homem que come gente, agora atravessado pelo tempo presente. O segundo são os ‘Objetos do Cotidiano’, que transformam o comum em símbolo e fantasia, valorizando aquilo que nos cerca todos os dias e que muitas vezes passa despercebido”, explica Nancy.
O terceiro recebe o título de “Momentos Icônicos da História do Brasil” e pretende relembrar e recriar episódios absurdos que marcam o imaginário coletivo do brasileiro. “Será um show de aleatoriedades, que abre espaço para o humor, a crítica e a memória coletiva. É um convite para a apropriação coletiva do tema”, diz Nancy, citando protagonistas das Copas do Mundo, o ET de Varginha, a Grávida de Taubaté, o Chupa-Cabras, a Carreta Furacão, o Patriota do Caminhão, entre outros personagens.
“Vai ter exagero, mistureba, abundância, muitos cheiros e muitas cores. Enquanto os foliões ocupam a rua com suas interpretações livres do tema, a banda e o trio fazem uma grande homenagem ao popular e ao cotidiano, em um ponto de condensação simbólica do cortejo”, finaliza a artista.
Ecos latino-americanos
Vocalista e guitarrista do Cómo te Lhama? e da Atípica de Lhamas (banda derivada do bloco), Carlos Bolívia explica porque o tema encontra eco entre latinos de outras nacionalidades. “Temos que entender que não somos brasileiros e também latinos. Nós somos brasileiros porque somos latinos. E às vezes perdemos a noção disso”, afirma o brasileiro nascido em La Paz.
“Fomos expostos à mesma exploração que a de outros países e encontramos estratégias semelhantes para enfrentar este mundo. Então, quando falamos das nossas gambiarras, da nossa improvisação para viver, o peruano chega aqui e vai sentir uma coisa parecida. Quando falamos da nossa religiosidade popular, da nossa Folia de Reis, por exemplo, haverá ecos em manifestações da Argentina, da Bolívia, do Paraguai”, continua o músico. “Vamos dialogar com as semelhanças, mas também com a saudade que as pessoas têm dessas pequenas alegrias de serem colombianos, mexicanos, argentinos e estar longe do país deles”.
Para Bolívia, o tema chega em um momento histórico importante, quando o levante pela soberania dos países latinos e a afirmação do orgulho latino têm sido pautas recorrentes. “Temos o direito de retomar nosso processo civilizatório. É uma questão de orgulho, mas também de autonomia”, pontua, ressaltando o poder transformador da festa. “Como diz Luiz Antônio Simas, ‘o que espanta a miséria é a festa’. A festa nos permite vislumbrar tudo que pode ser bom na vida. E aí a gente sonha, que a gente planeja, que a gente cria expectativas de mudança”, reflete o músico.
“Você vai numa casa pobre, num casamento de uma pessoa mais simples em La Paz e vai ter a melhor festa de sua vida. Você vai numa festa no altiplano peruano ou numa favela no Brasil e vai ter a melhor experiência da sua vida. A festa gera possibilidades de fartura, mesmo que passageiras, e isso cria espaço para a gente sonhar. Sem festa, a gente vive triste, e quem está triste não sonha, não pensa que é possível mudar qualquer coisa no mundo. Nós também temos que lutar pela alegria”.
Cumbia Brasilis e novo repertório
Outro ponto considerável do cortejo é o destaque para a produção brasileira contemporânea de cumbia, gênero surgido na Colômbia e que, ao longo do século XX, se espalhou por outros países latino-americanos, tais como Peru, Bolívia e Argentina. Linha-guia da identidade musical do bloco, a cumbia é misturada, em arranjos percussivos e melódicos, a ritmos da cultura popular brasileira, como maracatu, ijexá e carimbó, e de expressões de outros cantos da América Latina, como o cuarteto, o reggaeton e o caporal.
Neste ano, além de reverenciar grandes nomes da cumbia e “cumbiar” músicas brasileiras, o repertório garante espaço para músicas do gênero criadas atualmente no Brasil, país que demorou a abraçar o gênero, mas que vem construindo uma cena próspera nos últimos anos. “É fundamental pensar e criar a cumbia brasileira. Conhecer as referências de fora, mas fazer nosso jeito, com nossa linguagem, nosso sotaque. E vejo que estamos neste processo. Hoje, temos dezenas de projetos de cumbia acontecendo pelo Brasil, especialmente em capitais como Belo Horizonte, São Paulo, Rio de Janeiro e Curitiba”, afirma o músico.
Regente do bloco e percussionista da Atípica de Lhamas, Bela Leite destaca a diversidade das participações deste ano, que prometem dar um toque a mais de brasilidade ao cortejo. “Teremos artistas locais, como o cantor Jeffim Dabazi, da banda Swing Safado, e a regente Dani Ponce, do bloco Pisa na Fulô. Também receberemos dois convidados nacionais, que são a cantora, compositora e multiartista cearense Di Ferreira; e o cantor, compositor e multi-instrumentista paraense Saulo Duarte. Aleksey el Majadero, artista colombiano radicado em São Paulo, esteve no cortejo do ano passado e marcará presença mais uma vez”, conta.
A regente comenta sobre o crescimento do Cómo te Lhama? e destaca os desdobramentos positivos deste processo. “Este ano, vamos para as ruas com mais de 180 pessoas, entre bateria e ala de dança. É algo transformador, porque percebemos que, mesmo tocando ritmos bem diferentes do que estamos acostumados no Carnaval, há uma qualidade técnica e musical muito forte. E isso é fruto do nosso trabalho, da nossa dedicação enquanto arte educadores, enquanto bloco, como gestores, e também da dedicação e da curiosidade dos ritmistas e das dançarinas. É incrível perceber que a semente que plantamos em 2017 hoje floresce de uma forma muito linda”.
Cemig: a energia da cultura
Como a maior incentivadora da cultura em Minas Gerais, a Cemig segue investindo e apoiando as diferentes produções artísticas existentes nas várias regiões do estado. Afinal, fortalecer e impulsionar o setor cultural mineiro é um compromisso da Companhia, refletindo seu propósito de transformar vidas com energia. Ao abraçar a cultura em toda a sua diversidade, a Cemig potencializa, ao mesmo tempo que preserva, a memória e a identidade do povo mineiro. Assim, os projetos
incentivados pela empresa trazem na essência a importância da tradição e do resgate da história, sem, contudo, deixar de lado a presença da inovação. Apoiar iniciativas como essa reforça a atuação da Cemig em ampliar, no estado, o acesso às práticas culturais e em buscar uma maior democratização dos seus incentivos.
Cortejo do bloco Cómo te Lhama? 2026
Quando. Dia 7/2, sábado, concentração às 13h
Onde. Rua Gomes Pereira, entre 209 e 191, bairro Boa Vista (Belo Horizonte / MG)
Quanto. Gratuito




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