A noite é dedicada à pré-estreia de “Com dois olhos puseram, com três olhos eu tiro”, filme-rito de Carina Aparecida, com intervenções das artistas Zi Reis, Larissa Ribeiro e Pipe Nascimento
No dia 6 de outubro, terça-feira, às 19h30, será realizada, no Espaço Comum Luiz Estrela, a pré-estreia do curta-metragem “Com dois olhos puseram, com três olhos eu tiro”, da realizadora Carina Aparecida, durante o evento “Uma noite para as nossas avós”, que tem como proposta celebrar a beleza, a força, a fé, as histórias e o legado dessas mulheres. O curta foi construído a partir do olhar íntimo da diretora ao buscar as memórias de sua avó materna, a benzedeira Sinhana, ao mesmo tempo em que aceita o chamado de aprender o ofício de benzer. Mesclando a linguagem experimental e a tradição oral, o filme cria um diálogo entre distintas gerações de mulheres e suas visões sobre a cura. Todas as atividades são gratuitas.
Além da exibição do curta, a noite conta com a participação de artistas convidadas que também têm trabalhos sobre memórias de suas avós como a artista multidisciplinar, produtora cultural e escritora Zi Reis, que vai realizar intervenções a partir da leitura de fragmentos do seu livro-poema “Maria não me sai da cabeça”; a atriz, produtora cultural e pesquisadora de cena Larissa Ribeiro, integrante do Coletivo Percepção, composto por ela e por artistas formados em Artes Cênicas pela UFOP, que fará leituras de trechos do livro “La Ciça”; e Pipe Nascimento, que atua nas áreas de arte, cultura e educação, que vai ler fragmentos do livro “Coração de Bananeira”, escrito por ela, Marcos Alexandre e Soraya Martins.
Segundo a diretora, “Com dois olhos puseram, com três olhos eu tiro” é concebido como um filme-rito que atravessa as memórias de sua avó por meio da escuta de histórias contadas por sua mãe, Maria Catarina, e suas tias, Maria da Glória e Maria Angelina, enquanto observa sua própria relação com o ofício de benzer. Entre o documental e o experimental, o filme cria um diálogo entre diferentes gerações de mulheres, seus saberes e suas formas de compreender a cura.
Carina conta que sua avó ajudava todo mundo. Fazia remédio utilizando plantas e as pessoas da comunidade a chamavam para benzer e para realizar os partos na roça onde morava, em Virginópolis, Minas Gerais. “Desde criança, as memórias da minha vó me acompanham. Mesmo tendo nascido quase duas décadas depois de sua morte, ela sempre foi presença: da grandiosidade de sua sabedoria às miudezas e simplicidades tão bonitas do cotidiano”, conta.
O chamado para o ofício de benzer aconteceu quando Carina, já adulta, foi visitar Marlene Terezinha de Oliveira, uma senhora que a benzia quando era criança, moradora do bairro Dom Bosco, em BH, onde a diretora nasceu. Nesse encontro, após benzer Carina, Marlene disse a ela que não estava ali, naquele dia, à toa, e que não queria morrer sem deixar o ensinamento da benzeção. “Por uns instantes eu paralisei. Justo em um momento em que me sentia tão humana, cheia de fragilidades e questões enquanto mulher”, relata.
A primeira benzeção que Marlene a ensinou é a oração contra o mau olhado, pronunciando a frase “com dois olhos puseram, com três olhos eu tiro”, que deu título ao curta. “Em 2022, na primeira vez em que eu benzi, pronunciei a frase. Não é por acaso que o projeto tenha esse nome: aqui, o terceiro olho também representa a câmera que eu utilizei para realizar a produção. Representa, também, um encontro da mulher que cresceu escutando as histórias da avó, da mulher aprendiz de benzedeira e da mulher artista”, explica Carina.
O filme traz registros intimistas que mesclam áudios e depoimentos da mãe de Carina, das tias e de Marlene, com imagens que constroem uma narrativa poética. Segundo Carina, uma das únicas fotografias de sua avó também é um elemento que aparece em momentos distintos do filme como forma de valorizar o quase inexistente arquivo visual da população mais pobre daquela época.
O curta “Com dois olhos me puseram, com três olhos eu tiro” foi realizado com recursos do Edital Público № 03/2023 – BH nas Telas – Edição Paulo Gustavo.
Oficina “Memórias de cura e proteção de imagens”
Ministrada por Carina Aparecida no Centro Cultural Vila Fátima, a oficina nasce como desdobramento do processo de criação do curta “Com dois olhos puseram, com três olhos eu tiro”, propondo um espaço de encontro, escuta e criação no qual memórias pessoais, familiares e territoriais possam ser reconhecidas como fontes de conhecimento, narrativa e expressão artística. A partir da oralidade, da escrita, de objetos afetivos, do corpo, da fotografia e de estímulos sensoriais, as participantes serão convidadas a acessar lembranças e a experimentar maneiras de transformá-las em palavras, gestos, sons e imagens. Aberta ao público em geral, a oficina valoriza especialmente as narrativas de mulheres mais velhas, compreendendo seus corpos e modos de contar como arquivos vivos de histórias individuais e coletivas.
Importante: para participar da oficina “Memórias de cura”, cada participante deve escolher e levar um objeto que represente uma memória marcante, como fotografia, planta, roupa, caderno, receita, utensílio, carta, tecido, objeto religioso ou qualquer outro elemento significativo. O objeto não precisa ter valor material, sua importância está na relação afetiva que estabelece com a lembrança.
A atividade será realizada em parceria com a oficina “Ervas e raízes: troca de saberes”, ministrada por Lina Maria Corrêa e que já é realizada no Centro Cultural Vila Fátima, que tem por objetivo promover momentos de troca de informações, estudos e ideias sobre as plantas medicinais, saúde e bem viver, onde se trabalha o plantio, a agroecologia, a produção de mudas, a colheita e o beneficiamento das ervas na preparação de chás, tinturas, pomadas, xaropes e sachês, associando conhecimentos científicos e valorizando os saberes tradicionais sobre as ervas, passados de geração em geração por raizeiras, benzedeiras e pelas avós.
FICHA TÉCNICA
Elenco:
Vó Sinhana – Ana de Souza e Silva
Mãe – Maria Catarina Lima dos Santos
Tia Glorinha – Maria da Glória de Lima
Tia Nenzita – Maria Angelina Lima de Oliveira
Dona Marlene – Marlene Terezinha de Oliveira
Roteiro: Carina Aparecida e Íris de Oliveira
Montagem: Íris de Oliveira
Finalização: Ian Lara
Direção de Fotografia: Carina Aparecida e Ian Lara
Assistência de som: Anselmo Souza de Lima
Produção Executiva: Fernanda Brescia e Luciana Lanza
Produção: Luciana Lanza
Designer: Fernanda Monte Mór
Assessoria de imprensa: Helga Prado
Still: Bê de Sá
Audiodescrição: Vanessa Oliveira
Trilha sonora: Débora Costa
com música de Alexandre Lima dos Santos
Preparação de cena: Bruna Chiaradia
Assistência na performance: Luna Paola
Direção: Carina Aparecida
Audiodescrição: Vanessa Oliveira
Pré-estreia do curta “Com dois olhos puseram, com três olhos eu tiro”, de Carina Aparecida
Data: 6 de outubro, terça-feira, às 19h30
Local: Espaço Comum Luiz Estrela – Rua Manaus, 348 – Santa Efigênia / São Lucas
*Entrada gratuita
Oficina “Memórias de cura e proteção de imagens”
Data: 8 de outubro, quinta-feira, das 14h às 18h
Local: Centro Cultural Vila Fátima
Endereço: R. São Miguel Arcanjo, 215 – Nossa Senhora de Fátima, Belo Horizonte
*Atividade gratuita e com exibição do curta ao final da atividade, aberta ao público












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