Muita estrada e pouco chão – 13/09, 18 e 24/10

Marquim D’Morais faz três shows no Aglomerado da Serra afirmando a periferia como local, não só de resistência, mas da arte e cultura

O cantor, compositor, mestre de capoeira, produtor cultural e arte-educador Marquim D’Morais faz três apresentações do show “Muita estrada e pouco chão”. Na ocasião o artista vai levar para o público cerca de 20 canções compostas ao longo de seus mais de 25 anos de caminhada na arte. Canções como “Do Alto do Morro”, que dá nome ao seu primeiro álbum, “Nas Estradas” e “Ritmo é Poesia”, presentes em seu segundo e último disco, e outras lançadas como single estão no repertório do show. “‘Muita Estrada e Pouco Chão’ pode ser o fim da jornada, mas também pode ser o começo. Depende de como enxergamos o muito e o pouco”, reflete o artista. Serão três apresentações, às 15h,  em diferentes endereços no Aglomerado da Serra, dia 13/9 e 18/10, domingo e 24/10, sábado, com entrada gratuita, classificação livre, e tradução em libras. 

Marquim mostra neste projeto uma nova etapa de sua carreira. Os shows reúnem músicas dos álbuns “Do Alto do Morro”, “Daqui Até Onde Eu Quiser”, e canções inéditas que transitam em diferentes gêneros. “Minha obra já soma mais de 500 canções que passeiam por diversas vertentes, entre cantigas de capoeira, samba, reggae, RAP, Funk, baladas, MPB e mais”, conta o artista. Em cada uma das apresentações o artista leva convidados que farão a abertura do show como As Pandeiristas, coletivo que ocupa praças com rodas de pandeiro para ensinar e empoderar mulheres  Ohana, MC, cantora e compositora da RMBH, e o Coletivo Avoante, que promove a poesia marginal e literatura periférica. “Acredito no movimento de coletivizar, e assim como eu, várias pessoas estão por aí realizando, criando, e proporcionando ao mundo um pouco de saúde através da arte, da cultura, e do conhecimento, e nada mais justo que dividir cada facho de luz com essas figuras”, afirma o artista. A escolha dessas convidadas se deu porque Marquim entende que o trabalho dessas artistas precisa ser reverberado. “São figuras importantes para a construção da memória coletiva, para a formação de referências pra quem tá vindo depois, e tê-las presentes nesse e outros movimentos, também garante que a construção da memória cultural não ficará nas mãos de uns e outros que estão suportados por fatores que nada tem a ver com a feitura da arte”, justifica.

Todas as três apresentações serão em vilas que formam o Aglomerado da Serra, local de nascimento do artista. Marquim entende que como o conceito africano de Sankofa, é preciso olhar para o passado para construir o futuro. “Eu sou um artista nascido e criado no Aglomerado da Serra, mais especificamente na rua Ritmo – e exibo com muito orgulho o meu status de favelado. São 38 anos de vida, e não consigo ver nenhuma perspectiva de futuro, sem olhar pra trás. Sem lembrar das minhas raízes firmadas na terra onde “zumbi foi eleito” e toda a riqueza que herdei sendo filho de um lugar onde o morro, muitas vezes, é verbo – mas muitas vezes aponta pra subida”, orgulha-se. 

Durante o show serão declamadas poesias e realizadas performances que costuram a apresentação e dão o tom do espetáculo. “São todas poesias minhas, e eu não as escolhi. Elas é que vão escolher o momento que querem se manifestar. Às vezes o olhar de alguém do público que vai trazer a próxima poesia. Às vezes algo que alguém diz ao longe, ou um sentimento que salta do meu peito”, explica.

O fato de ser um artista periférico justifica o nome do projeto que, a priori, parece contraditório. Afinal como ter muita estrada e pouco chão? “O nome por si só diz muito sobre os processos, que são comuns aos artistas periféricos e socialmente marginalizados. Seja por gênero, classe, cor e afeto. Uma longa estrada percorrida, poucos recursos, pouco apoio, pouca valorização e reconhecimento. Pouco porto pra ancorar o veleiro que navega sem medo e sem segurança. Muita estrada e pouco chão”, explica o cantor.

“Muita estrada e pouco chão” tem como objetivo levar para o público uma mensagem de bons agouros, dessa forma, Marquim acredita que cada apresentação levará para o público esperança. “Desejo que as pessoas saiam do show querendo ficar. Que elas queiram repetir a experiência. Quero que levem a mensagem de paz, de amor e respeito às diferenças. Que se lembrem das palavras não como uma verdade, mas como uma possibilidade de reflexionar sobre as muitas verdades”, conclui o artista.

Sobre Marquim D’Morais

Marquim D’Morais subiu ao palco pela primeira vez há 25 anos, entre os anos de 2001 e 2003, integrou a banda Kayajhama, grupo de reggae do Aglomerado da Serra. Seu início nessa estrada musical é marcado pela sua trajetória na capoeira, desde 1999. “É onde, influenciado pela musicalidade desta manifestação, sua instrumentação, e toda ancestralidade, me encontro com as palavras, com os ritmos, e as infinitas possibilidades. É dentro desta estrutura de cultura popular que descobri os instrumentos, os cantos, e o meu jeito para a composição”, lembra.

Uma característica de Marquim é ser atento, crítico e sensível ao que o rodeia. “Olho a estrutura social com crítica e com um olhar realista, que consegue ver a beleza no caos, sem ignorar o caos. Às vezes ácido, às vezes doce, às vezes, brisa e às vezes vendaval. Mas com certeza, a Favela e todo contexto presente nesse território, que é minha escola e minha missão, é o que mais influencia a minha obra. Mas não somente’, afirma.

A carreira de Marquim D’Morais se mantém profícua também pelas parcerias que tem com artistas da cena belo-horizontina. “Tenho muitas parcerias ao longo do caminho, sendo a Iaiá Drumond a minha parceira mais presente nesse processo de composições. Em seu disco de estreia, estão quatro composições minhas”, conta. Para além da composição, o artista é um intérprete de voz precisa e cheia de personalidade, dessa forma, já participou de vários trabalhos. “Colaborei como intérprete e compositor nos singles de estreia das cantoras Pri Glenda, Amandona e Yara Tanure, e nos álbuns de estreia de Hugo Xaber, Moreno Bernardo e Marcílio Rosa. Dentre outras colaborações estão também; Júlia Ribas, Tininho Silva, Rafa Dias, Ohana, Onã, Douglas Din, Emílio Dragão, Arcomusical Brasil, Cacau dos Anjos, Thiago dos Anjos, Morenno Bernardo, Samba da Resistência, Kainná Tawá e Cliver Honorato”, elenca.

O projeto “Muita estrada e pouco chão”, sob o número 0794/2025, é realizado com recursos do Fundo Municipal de Cultura de Belo Horizonte.


Show “Muita estrada e pouco chão”, de Marquim D’Morais

Data: 13/09/2026, domingo
Horário: 15h
Local: Horta Comunitária Cantinho da Fazenda (Rua Mangabeira da Serra – ao lado do nº 370), Aglomerado da Serra
Show com acessibilidade em libras 

Data: 18/10, domingo
Horário: 15h
Local: Kilombo Manzo (Rua São Tiago, nº 216. Santa Efigênia)
Show com acessibilidade em libras 

Data: 24/10, sábado
Horário: 15h
Local: Espaço Mulheres da Quebrada (Rua Carlos Etiene de Castro, 32, Serra)
Show com acessibilidade em libras