Magia Negra traz a Criação do Mundo na cosmovisão Yorubá – 18/2

Bloco arrasta multidões no bairro Concórdia, território da Pequena África de Belo Horizonte

Na quarta-feira, dia 18 de fevereiro de 2026, o Bloco Afro Magia Negra ocupa as ruas do bairro Concórdia, em Belo Horizonte, com um arrastão que une vozibildade dos tambores e seus códigos sonoros, ancestralidade e afrobetização antirracista. A concentração acontece a partir das 12h, na Praça Gabriel Passos, popularmente também conhecida como Praça do Magia, com apresentações de Camilo Gan e o Samba de Terreiro, convida Mestre Oluodé Rogério (SP) e Gil da Viola (BA). Neste ano, a homenagem Opá Magia, em que o bloco reconhece uma personalidade fundamental para a cultura negra brasileira e mundial, será destinada ao compositor, cantor, instrumentista e ator mineiro Marku Ribas. Após a cerimônia de abertura, comandada por Sandra Nandaka, às 15h, inicia o arrastão que, em 2026, traz o tema “A criação do mundo por ODÙDÚWÀ”, inspirado na cosmovisão do povo Yorubá.

O Arrastão é realizado pelo Bloco Afro Magia Negra e Ponto de Cultura Afrormigueiro via Lei Estadual de Incentivo à Cultura de Minas Gerais – Descentra Cultura, CA 2024.3808.0730, com o patrocínio da CEMIG e do Governo do Estado de Minas Gerais. Também possui o apoio de: Yiaminas, Minasjé, Baticum, Viva Lagoinha, INECAP, Infinito.Gal, Maracá, Museu de Artes e Ofícios, Museu Mineiro, e Belotur – Prefeitura de Belo Horizonte.

Um bloco para desfazer feitiços racistas

Criado em 2013, em Belo Horizonte, pelo artista Camilo Gan, o Bloco Afro Magia Negra nasceu da necessidade de reunir pessoas comprometidas com o enfrentamento ao racismo. O principal objetivo do bloco é promover a afrobetização por meio da cultura negra. Mais do que um bloco que se manifesta para além do carnaval, o Magia Negra propõe uma experiência ritualística exercendo uma abordagem pretagogicamente educativa, utilizando expressões corpóreas, e a fusão de códigos sonoros percutidos no oeste da África e no Brasil, como ferramentas de afrobetização – conceito central do trabalho desenvolvido pelo grupo ao longo de seus 12 anos de existência de promoção do letramento racial.

A banda de rua do Magia Negra se manifesta por meio de um ritual designer, incorporando elementos característicos dos blocos afros: toques de tambores ancestrais, dança, clarins, água de cheiro, aromas e o tradicional banho de pipoca, símbolo de saúde, proteção e sabor. Esses elementos conduzem o público pelas ruas no arrastão pelo bairro Concórdia, pertencente ao território da Pequena África de Belo Horizonte, região fundamental de expressões da afromineridade e de culturas negras na capital mineira. Neste ano, o bloco traz como convidados os mestres Carlinhos Ferreira (MG), Johnny Herno (MG), Mestre Oluodé Rogério (SP), Rafael Leite (MG), e Banilak Bah (PA), além do trio de metais dos Clarins da Bahia.

O “esquenta” do arrastão é marcado pelo Samba de Terreiro, em reverência aos povos originários, aos encantados do Brasil e às energias alicerces que nutriram a geração de patrimônios culturais materiais e imateriais que sustentam a afro brasilidade popular. Como reforça o fundador do bloco, Camilo Gan, o Magia Negra não busca “carnavalizar” a cultura negra, mas a traz como tecnologia social para informar, sensibilizar e transformar. “A gente vem inspirado na tradição para narrar acontecimentos, históricos reverenciaando, afrobetizando, e enfatizando as contribuições do povo negro sequestrados para as americas”.

Atualmente, a banda de rua do Bloco Afro Magia Negra é composta por cerca de 80 integrantes, entre percussionistas, instrumentistas de sopro e dançarinas(os). Para o fundador Camilo Gan, o corpo é elemento central do arrastão: “O corpo é a nossa casa e o elemento mais importante dentro do nosso sopro de vida que nos habita. É o corpo interpretando o Itã.” 

O tema de 2026 aborda a criação do mundo, e a narrativa é baseada nos Itãs, nome dado às histórias e memórias dos feitos dos orixás no Ayê, no mundo dos humanos. Segundo Camilo Gan, a escolha do tema é também um gesto e abordagem pretagógica. “Esse tema traz a criação do mundo como uma maneira das pessoas conhecerem essa cosmovisão yorubana, entre tantas outras que existem”, explica Camilo Gan, destacando que a civilização Yorubá corresponde ao atual território da Nigéria, na África.

A criação do mundo por ODÙDÚWÀ

O Itã se passa em um tempo primordial, quando ainda não havia terra, nem mundo, nem humanidade, existiam apenas as águas e os pântanos. Do Orun, o mundo celestial, alguns orixás desciam ocasionalmente para brincar sobre a superfície do mar. Foi então que Olodumaré, o criador de tudo, decidiu que era tempo de dar forma ao mundo e confiou essa missão a Obatalá, seu filho mais velho. Para isso, entregou-lhe um saco de terra e uma galinha de cinco dedos, orientando-o a buscar a sabedoria de Orunmilá, divindade da sabedoria, antes de iniciar a criação, que indicou a Obatalá que fossem feitas oferendas para que o trabalho fosse concluído com sucesso.

Obatalá, porém, negligenciou as oferendas necessárias. Odùdúwà, outra divindade que observava a tudo, cumpriu rigorosamente os sacrifícios exigidos e, quando Obatalá, impedido por Exu ao ser vencido pelo sono, falhou em sua missão, Odùdúwà foi chamado por Olodumaré para assumir a tarefa da criação. Descendo até as águas infinitas, despejou a terra sobre o mar e lançou a galinha, que ciscou e espalhou o solo por todos os cantos, formando a Terra. Ali surgiria Ilé-Ifé, a cidade sagrada, considerada o umbigo do mundo e berço espiritual dos povos yorubás.

Ao despertar, Obatalá soube do ocorrido e, como consequência de seu erro, recebeu a incumbência de criar os seres humanos. Cumprindo desta vez todas as obrigações, modelou homens e mulheres do barro, que ganharam vida com o sopro de Olodumaré. Assim, o mundo passou a existir em plenitude, com terra e humanidade formadas.

De Ilé-Ifé partiram os descendentes de Odùdúwà, fundando reinos e cidades que deram origem à civilização yorubá e a profundas conexões culturais, políticas e espirituais na África Ocidental. Essa narrativa, transmitida pela tradição oral, sustenta até hoje a compreensão do mundo, da ancestralidade e da organização social dos povos yorubás, reafirmando a importância da memória, do corpo e da coletividade na criação e na continuidade da vida.

No arrastão do Bloco, três elementos simbólicos da criação são representados, de acordo com Camilo Gan. “A corpo oralidade, associada à galinha-d’angola, que espalha a terra primordial, formando o continente-mãe; o Agemo (camaleão), representado pela banda de rua, que testa a firmeza da terra para que as demais criações aconteçam coordenada por Jhonson Encina (Chile); O sopro funfun, que dá vida aos homens e mulheres modelados no barro, representado nas Yiaminas, organização umbilicalmente ligada ao Bloco Afro Magia Negra, que reúne mulheres do reinado mineiro e nações do candomblé do Brasil em Minas Gerais, tendo como líder, a Ekedy Kely, pertencente a comunidade do Concórdia”, destaca o artista.

Homenagem ao Marku Ribas

Em 2026, o Bloco Afro Magia Negra presta homenagem a Marku Ribas (1947–2013), artista mineiro nascido em Pirapora, à beira do Rio São Francisco. Filho de pai negro e mãe descendente de indígenas Caiapós, Ribas tem influência da cultura do povo mestiço de indígenas e africanos, presente no norte de Minas Gerais. Com uma obra marcada pelo diálogo entre gêneros e tradições, Marku construiu uma linguagem musical que conecta Minas às matrizes africanas e às musicalidades das Américas, transitando por ritmos como rumba, salsa, merengue, jazz e funk americano.

Para Camilo Gan, Marku é uma referência fundamental para a estética sonora do Magia Negra: “Marku, para mim, é uma fábrica de códigos sonoros de Minas Gerais para o mundo. Ele é um Deus sonoro, porque a obra dele continua em vigência”, destaca Camilo Gan. A homenagem busca não apenas reverenciar sua trajetória, mas também despertar o interesse de novas gerações por sua produção artística.

Perseguido pela Ditadura Militar, o artista se exilou na França, onde chegou a participar de uma gravação de percussão para a banda Rolling Stones. Além de cantar e ter suas composições gravadas por artistas como Alcione, Paula Lima, Elza Soares e João Donato, Ribas atuou no cinema. Entre as obras das quais participou estão Chega de saudade (2008), de Laís Bodanzky; Batismo de sangue (2007), de Helvécio Ratton, no qual interpretou Carlos Marighella; e Lula, o filho do Brasil (2009), de Fábio Barreto. 

Bloco Afro Magia Negra – A criação do mundo por ODÙDÚWÀ – Carnaval 2026

Data: 18 de fevereiro de 2026

Horário: Concentração às 12h

Local: Praça Gabriel Passos – Rua Itararé, 96 – Bairro Concórdia – BH

Tema: A criação do mundo por ODÙDÚWÀ

Homenageado: Marku Ribas

Instagram: @blocoafromagianegra

Cronograma do Arrastão

12h00 Concentração;

13h00 Cerimónia de homenagem Opá Magia e Clarins da Bahia

14h00 Camilo Gan e o Samba de Terreiro convida Mestre Oluodé Rogério – SP e Gil da Viola – BA e Clarins da Bahia;

15h00 Ekedy Kely e as Yiaminas;

15h30 Saída do arrastão;

Cortejo realizado com recursos do Descentra Cultura – Lei Estadual de Incentivo à Cultura de Minas Gerais – CA 2024.3808.0730 

Patrocínio: CEMIG e Governo do Estado de Minas Gerais

Apoio: Yiaminas, Minasjé, Baticum, Viva Lagoinha, INECAP, Infinito.Gal, Maracá, Museu de Artes e Ofícios, Museu Mineiro, Ve Belotur – Prefeitura de Belo Horizonte. 

Realização: Bloco Afro Magia Negra, Ponto de Cultura Afrormigueiro e Governo do Estado de Minas Gerais.