Espetáculo solo marca uma nova etapa na trajetória da artista e transforma um período de incerteza em uma experiência ritual sobre feminino, natureza, cura e resistência.
Depois de quatro anos sem conseguir aprovar projetos autorais em editais, a artista mineira Rosa Antuña volta aos palcos com “A Dança da Mulher-Árvore”, seu mais novo trabalho. O espetáculo solo estreia nos dias 18, 19 e 20 de setembro, às 19h, na Sala João Ceschiatti, no Palácio das Artes, em Belo Horizonte.
A Dança da Mulher-Árvore nasceu justamente do período em que Rosa se viu afastada dos palcos autorais. “Fiquei quatro anos sem conseguir ser aprovada em editais. Isso, para uma artista da cena, é tempo suficiente para que ela seja esquecida”, afirma. Para ela, esse período representa uma realidade vivida por muitos artistas brasileiros que permanecem em uma espécie de “limbo cultural”, não possuem estrutura ou visibilidade suficientes para acessar outras formas de patrocínio e circulação e poucas oportunidades de editais que contemplem mais artistas. “É complicado sobretudo porque não sigo modismos, nem tendências. Ser uma artista independente no Brasil hoje é sem dúvida um ato de coragem, rebeldia, resistência e loucura.”
Espetáculo ritual
Ao longo desses quatro anos Rosa priorizou a espiritualidade mas sem esquecer da dança. “Me encontrei na Umbanda onde eu podia dançar, cantar, ser útil, estar em uma comunidade, viver o ritual e servir a algo maior do que eu. Foi a Umbanda que me manteve sã, ao longo desses quatro anos em que não vi perspectiva na Arte, sendo eu uma artista da cena.”
Durante esse tempo Rosa continuou o trabalho como coreógrafa e criou trabalhos para o Corpo de Dança do Amazonas, para a Curitiba Cia de Dança, para a Cia do Mato em Campo Grande, para dois grupos de Vitória e ainda dirigiu alguns solos de dança e de teatro em BH e em Palmas (TO).
Foi também nesse período que a imagem da árvore passou a ocupar um lugar central em sua pesquisa. A artista começou a observar as árvores, sua presença silenciosa, sua força, delicadeza, permanência e capacidade de criar raízes. Aos poucos, começou a experimentar essas qualidades no próprio corpo e iniciou uma pesquisa de movimento que daria origem ao novo espetáculo. “A Mulher-Árvore é uma mulher que precisou encontrar suas raízes mais antigas para poder se firmar, crescer e compartilhar seus frutos”, explica Rosa.
A Mulher-Árvore é apresentada como um ser ancestral, testemunha da história da humanidade. De dentro dela surgem bruxas, xamãs e feiticeiras. Ela guarda memórias, revela verdades e conduz a uma experiência de consciência e transformação.
O espetáculo evoca as forças da terra, do fogo, da água e do ar, construindo uma dramaturgia baseada principalmente no corpo, no gesto e na presença. Rosa define a experiência como um “estado de transe consciente”: uma espécie de estado meditativo e de consciência expandida em que forças são evocadas e em que podem surgir expurgo, revelação, transcendência e gozo.
‘A Dança da Mulher-Árvore’ é um espetáculo ritual onde há cura e sublimação da dor”, Neste espetáculo a Mulher-Árvore é um ser que testemunhou a tudo o que aconteceu na história da humanidade. Ela é a mais velha de todas. De dentro dela saem bruxas, xamãs e feiticeiras. Ela nos revela a verdade que mais tememos sobre nós mesmas. Ela nos traz consciência e cura. E quando despertamos para quem realmente somos, é para a grande Mulher-Árvore que retornamos, afirma a artista.
A construção de “A Dança da Mulher-Árvore” aconteceu de forma independente. A primeira apresentação da obra ocorreu em 2025, ainda como work in progress, durante a 9ª Mostra Mulheres em Cena, em São Paulo, a convite da diretora Vanessa Macedo, da Cia Fragmento. Na ocasião, coreografa apresentou uma versão de 25 minutos.
Em 2026, a retomada dos palcos ganhou novo impulso. A artista voltou a apresentar trabalhos, incluindo “Angelina”, e levou novamente uma versão de 25 minutos de “A Dança da Mulher-Árvore” ao Festival 1,2 na Dança. Na sequência, foi selecionada pelo projeto ZAZ, da Assembleia Legislativa de Minas Gerais, onde apresenta a pré-estreia da versão de 40 minutos, e pelo edital de ocupação da Sala João Ceschiatti, no Palácio das Artes, onde realiza a estreia do espetáculo em sua versão atual.
O trabalho marca também o encontro de Rosa com o Butoh, dança japonesa que ampliou sua pesquisa sobre presença, expressividade e diferentes qualidades de movimento. Depois de décadas de carreira, a artista percebe no próprio corpo um caminho cada vez mais voltado para dentro.”Tenho buscado uma expressividade, a delicadeza do gesto. Chamo isso de “poesia do movimento”. E nessa busca me encontrei com o Butoh, essa pungente e filosófica dança japonesa. Estou me preparando para dançar de uma forma onde encontro força e expressividade sem machucar meu corpo e assim seguir dançando… dançando…”
crédito fotos: Guto Muniz
site: https://www.rosaantuna.com.br/
Estreia
Sala João Ceschiatti, no Palácio das Artes: dias 18/19 e 20/09, sexta, sábado e domingo, sempre às 19h
– Ingressos pelo Sympla ou na bilheteria do teatro: R$ 30,00 inteira R$ 15,00 meia entrada



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