Lançamento em BH acontece no próximo sábado, 1 de agosto, a partir das 11h, na Livraria Quixote
Em 1944, aos 20 anos, Fernando Sabino chegou ao Rio de Janeiro e encontrou na cidade muito mais do que um novo endereço. Copacabana, então símbolo de modernidade e efervescência cultural, tornou-se o ponto de partida de uma relação que atravessaria décadas e marcaria profundamente sua vida e sua obra. Esse percurso é agora reconstruído em O Rio de Fernando Sabino, assinado pela pesquisadora e professora Teresa Montero.
O livro será lançado em Belo Horizonte no próximo sábado, 1 de agosto de 2026, a partir das 11h, com a presença da autora. O evento acontece na Livraria Quixote (Rua Fernandes Tourinho, 274 – Savassi).
O livro conduz o leitor por dezesseis “Caminhos Sabinianos”, traçando um mapa afetivo e literário da cidade a partir das experiências do autor. Resultado de uma ampla pesquisa em cartas, crônicas, romances, arquivos pessoais, documentos inéditos, como registros de sua vida acadêmica na Faculdade de Direito, e relatos da família, o volume revela pela primeira vez o Rio de Janeiro onde Sabino viveu durante 56 de seus 80 anos.
A proposta do livro marca uma mudança de perspectiva em relação à imagem consagrada do escritor. Frequentemente associado às suas origens mineiras, Sabino tem aqui sua trajetória carioca colocada no centro da narrativa. Ao reconstruir com seus deslocamentos pela cidade, Teresa Montero evidencia um aspecto ainda pouco explorado: o papel decisivo do Rio na formação intelectual, literária e afetiva do autor.
Além de Ipanema, bairro ao qual o autor é frequentemente associado, a obra amplia sua geografia afetiva para o Leblon, o Jardim Botânico e, sobretudo, o Centro, onde a vida literária pulsava com intensidade nas décadas de 1940 e 1950. Nesse circuito, Sabino conviveu com nomes como Clarice Lispector, Otto Lara Resende e Paulo Mendes Campos, em bares, redações e apartamentos que funcionavam como verdadeiros núcleos de criação.
Copacabana e Ipanema estruturam esse percurso. A primeira, cenário central de O encontro marcado, que completa 70 anos de sua publicação original em 1956, concentra os anos de formação do escritor: foi ali que ele escreveu textos decisivos e recebeu amigos como Carlos Drummond de Andrade e Vinicius de Moraes no Edifício Elisabeth. Em Ipanema, por sua vez, acompanhou a consolidação de um imaginário cultural que marcaria a identidade da Zona Sul, ao mesmo tempo em que sua obra registrava os contrastes da cidade e suas tensões sociais.
O Rio de Fernando Sabino resgata episódios que revelam o cotidiano e a sociabilidade da época. No Bar Bico, na avenida Nossa Senhora de Copacabana, Sabino estendia as noites ao lado dos amigos, quase sempre com um simples cafezinho. O local, que atravessou mais de setenta anos e ainda está de pé, era ponto de encontro de jornalistas e escritores. Ali, como o próprio Sabino registrou, Otto Lara Resende “nos retinha à porta do bar com sua conversinha mineira da meia-noite às quatro, num cafezinho de dez em dez minutos”.
Outro endereço recorrente era o Juca’s Bar, na rua Senador Dantas, na Cinelândia, onde Sabino se reunia à tarde com Paulo Mendes Campos, Rubem Braga e Otto Lara Resende. O ritual incluía o uísque antes do jantar e conversas que frequentemente se estendiam além do previsto, a ponto de se formar fila no telefone do bar para avisar em casa que a noite ainda ia render, em um tempo anterior às facilidades da comunicação móvel.
No Leblon, bairro onde viveu entre 1960 e 1973, sua vida também se cruzou com episódios que revelam a inserção do escritor em um circuito cultural mais amplo. Seu apartamento na rua General Venâncio Flores ganhou notoriedade ao receber o músico Mick Jagger e a atriz Marianne Faithfull em sua primeira visita ao Rio. Diante da movimentação de curiosos, Sabino sugeriu que o casal fosse ao restaurante Antonio’s, um dos ícones da noite carioca, evidenciando o trânsito do autor entre diferentes esferas da vida cultural da cidade.
O título integra a série “O Rio da Literatura”, idealizada por Teresa Montero, que teve início com O Rio de Clarice – Passeio afetivo pela cidade. Assim como no primeiro volume, a autora convida o leitor a percorrer a cidade acompanhando um de seus grandes escritores, transformando o espaço urbano em narrativa e experiência.
Sobre a autora
Teresa Montero nasceu no Rio de Janeiro em 1964 e é professora, pesquisadora e atriz. Doutora em Letras pela PUC-Rio com a tese Yes, nós temos Clarice: a divulgação da obra de Clarice Lispector nos Estados Unidos (2001), dedica-se a divulgar o legado de Clarice Lispector há mais 30 anos.
É idealizadora e guia dos passeios “O Rio de Clarice”, “O Rio de Fernando Sabino”, “O Rio de Carmen Miranda” e “O Rio de Nossa Senhora de Copacabana”.
Organizou diversas obras de Clarice Lispector publicadas pela editora Rocco, e seu livro A procura da própria coisa. Uma biografia de Clarice Lispector (2021), uma edição ampliada de Eu sou uma pergunta, dissertação de mestrado defendida em 1996 e publicada em 1999, tornou-se um trabalho pioneiro ao reunir uma pesquisa inédita com 126 depoimentos.



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