Campanha Sapeca Leleca no Canadá

Mãe-pesquisadora da UFMG descobre novos modos de conciliar o trabalho aos tratamentos da filha, que lida com a paralisia cerebral

Depois de 4 anos afastada de suas funções enquanto pesquisadora na UFMG, a artista e professora da escola de Belas Artes, Graziela Andrade, percebeu uma nova forma de conciliar seus projetos com o tratamento da filha, que lida com a paralisia cerebral – como consequência de um parto malsucedido. “Quando Helena nasceu eu e minha família vivemos um trauma indescritível, e eu entendi que nunca mais conseguiria me dedicar às pesquisas. Há pouco tempo percebi que, como mãe de uma criança especial, eu nunca parei de pesquisar, eu havia apenas mudado meus interesses de conhecimento”.  

A artista e sua filha se preparam agora para embarcar para Toronto, onde irão experimentar – uma como pesquisadora e outra como paciente -, a técnica Adapted Spiral Praxis (abaixo os detalhes), fundada pelo canadense de origem japonesa Yuji Oka, e ainda inédita no Brasil. A família organizou a campanha “Sapeca Leleca no Canadá” (benfeitoria.com/projeto/sapecaleleca), para arrecadação de fundos para o projeto. No site é possível conhecer um pouco melhor esta história, contribuir com qualquer valor e ainda receber recompensas que variam entre livros, desenhos e pinturas dos próprios pais de Helena.  “Uma rede de afeto foi criada em torno de nós e estou muito grata por tudo isso. Sei que o caminho é longo e tortuoso, mas também sei que não estamos sozinhos. Será um tempo de grande aprendizado e quando eu voltar da pesquisa, espero poder multiplicar esse conhecimento auxiliando outras famílias.”   

É que, além dessa primeira experiência, Graziela acaba de ser aceita pela Universidade de Montreal (UQAM) onde desenvolverá sua pesquisa de pós-doutorado, prevista para 2023, relacionando a dança à paralisia cerebral: “Eles se interessaram pela minha pesquisa, pois minha abordagem é bem inovadora e, na verdade, muito simples. A ideia é envolver pais e crianças em uma espécie de jogos de dança, onde o prazer, o ritmo e a ludicidade, serão chaves para o movimento, respeitando a singularidade de cada corpo presente.”   

Foi investigando novas abordagens para as questões motoras de sua filha e a partir das experiências que ambas adquiriam ao longo de diversos procedimentos terapêuticos que a mãe-pesquisadora percebeu que o caminho potencial para o desenvolvimento da filha era justamente aquele que se encontrava com o campo da Dança, ao qual ela se dedica: “Helena faz todos os tratamentos tradicionais e que são importantes pra ela em termos de manutenção física, mas o aprendizado em si, no caso dela, me parecia acontecer quando havia uma proposta baseada em sua consciência, em seu engajamento. Foram em suas lições de Feldenkrais, que eu realmente notei algo novo acontecendo em seu corpo. Então comecei a buscar o que mais estava sendo desenvolvido em outros países, para além das pesquisas médicas que eu já mapeava.”

O Feldenkrais é uma das técnicas que faz parte do campo das abordagens somáticas que vão estudar o corpo de um modo mais global, e que sempre levam em conta a consciência corporal, o pensamento para além do movimento. Foi pesquisando estes caminhos que Graziela encontrou Yuji Oka: “Assim como eu, ele veio da dança, talvez por isso, minha identificação com o seu trabalho tenha sido tão imediata. Ele vem desenvolvendo seu método há 25 anos, é uma figura muito afetuosa, encorajadora e tem ajudado crianças no mundo todo. Agora chegou nossa vez!” – afirma Graziela, esperançosa.

A pesquisa e a maternidade no Brasil

Há em todo o mundo uma discussão que têm ganhado peso nas universidades e que põe luz à questão da produtividade científica, após a maternidade. No Brasil, as agências de fomento que balizam os programas de graduação e pós-graduação, se valem, especialmente, da quantidade e qualidade de publicações, para dirigir verbas aos docentes e seus programas de atuação. A parentalidade traz assim enormes desafios para quem integra a área da pesquisa acadêmica, pois, naturalmente, após o nascimento dos filhos há uma mudança nos modos de relação com o trabalho, entretanto as formas de cobrança permanecem as mesmas. 

Para Graziela e sua família os desafios se multiplicaram, pois além do atípico universo materno a ser descoberto, eles já tinham uma filha de 3 anos, quando a caçula nasceu. “Entrei em depressão, não sabia que caminho seguir, achei que o nascimento das minhas filhas marcaria o fim da minha carreira profissional”. 

Ao longo da pandemia e, com muita ajuda, ela descobriu na própria arte algumas válvulas de escape e começou a pintar e escrever livros infantis. Seus esforços foram ganhando desdobramentos e, seu marido – o artista, escritor e psicanalista Carlos Trovão -, hoje tem uma pequena editora voltada ao público infantil. Além disso, as telas de Graziela chamaram atenção da Cia Ananda e foram tema de um espetáculo de dança em que ela assina a direção junto à artista Anamaria Fernandes.    

Depois de todo esse caminho a família se esbarra no financiamento do projeto de pesquisa, não só para esta primeira viagem, mas também para o pós-doutorado de Graziela. “Sei que minhas chances de conseguir uma bolsa de estudos não são grandes, justamente porque passei 4 anos sem realizar publicações. Mas, tenho um projeto potente para desenvolver e farei o que estiver ao meu alcance para isso. Desejo discutir a questão da maternidade atípica, no contexto das exigências de produtividade acadêmica.”

Spiral Praxis 

A técnica fundada por Yuji Oka tem como princípio a atuação em uma espécie de lacuna (gap), entre o pensamento e a ação. É um sistema corpo-mente (bodymind) que aborda o aprendizado de maneira completamente integrada, utilizando a dinâmica espiral, que nos é natural, para promover o encontro entre o consciente e o inconsciente. Promove assim um estado de fluidez entre a ações e sentimentos, fazendo com que os movimentos humanos sejam menos automáticos e mais conscientes. 

Todos podem praticar a técnica e o Adapted Spiral Praxis é um desdobramento do original, para acolher pessoas de todas as idades com demandas específicas em função de condições corporais singulares. Na prática, as aulas acontecem de forma dirigida, mas passam, por exemplo, por manipulações, desafios lúdicos e orientação mental.

Assista aos documentários e conheça melhor: adaptedspiralpraxis.com

Fonte: spiralpraxis.com 

Dados da campanha:

benfeitoria.com/projeto/sapecaleleca

encerramento em 08/05

Site da artista:

graandrade.com

Site da editora:

acolaeditora.com

Pix para colaborações:

Cpf 01170942695

Professora Doutora Graziela Andrade

Graziela Andrade é mãe de duas crianças. Professora adjunta na Universidade Federal de Minas Gerais, no curso de licenciatura em Dança. Doutora em Ciências da Informação pela UFMG, em cotutela com a Universidade Paris-Est, na área de linguagens. É também multiartista atuando nas áreas da Dança, Artes plásticas e Literatura infantil. Nos últimos 10 anos, suas pesquisas voltaram-se para as relações dos corpos com as tecnologias contemporâneas e espaços urbanos. Atualmente, interessa-se por refletir sobre as epistemologias da dança através das abordagens somáticas e, especialmente, no contexto da singularidade dos corpos.