Cerrado é desmatado cinco vezes mais rápido que a Amazônia

Apenas um quinto do bioma original do cerrado continua totalmente preservado

O cerrado possui cerca de 13 mil tipos de plantas, o que o torna um dos biomas  mais ricos do mundo, porém os níveis de desmatamento são alarmantes: 9.483 km² apenas em 2015. Isso equivale a uma perda de quase 0,5% do total original do bioma ao ano.

Para comparação, a Amazônia, entre 2014 e 2016, teve uma média de desmatamento de 6.400 km² ao ano. O bioma, porém, tem mais do que o dobro de área do cerrado, fazendo que o ritmo de desmatamento fique na casa de 0,1% ao ano. Isso significa que o cerrado é desmatado cinco vezes mais rápido que a Amazônia. Os dados são do Programa de Controle e Prevenção do Desmatamento, do Ministério do Meio Ambiente.

Segundo Paulo Bellonia, Presidente da SaveCerrado – organização que atua na preservação de áreas privadas em Unidades de Conservação (UC’s) e no combate ao progressivo esgotamento dos recursos naturais do cerrado – a destruição acelerada do bioma se deve a falta de lei que iniba o desmatamento predatório dessas áreas, somado a outros fatores. “É exatamente no cerrado que existe a maior exploração do agronegócio, onde se destacam a criação de gado e a agricultura da soja em grande escala. As propriedades privadas próximas das UC’s são obrigadas a preservar somente 20% da área nativa, comprometendo a biodiversidade nessas regiões”, elucida.

Ele defende que o agronegócio tem que existir, mas as áreas de UC precisam ser preservadas, inclusive para a maior produtividade do agronegócio. “Várias propriedades não cumprem nem o mínimo de 20% de preservação determinado por lei, as chamadas áreas de reserva legal e nas UC’s devemos fazer muito mais que isso”, argumenta.

Os impactos da destruição refletem também no nível de água nas de grandes bacias, dentre elas, a do Rio São Francisco. A SaveCerrado apoia a preservação de uma área de mais de 15.000 hectares (ha), o equivalente a mais de 21 mil campos de futebol, onde existe uma concentração de Unidades de Conservação (UCs), tanto de proteção integral como de uso sustentável, que estão muito próximas. Dentre essas, a Área de Proteção Ambiental (APA) do Rio Pandeiros, que é a maior Unidade de Conservação de Minas Gerais e que possui influência direta no abastecimento de água na Bacia do Rio São Francisco.

Pesquisa

No ano passado, pesquisadores do Instituto Internacional para a Sustentabilidade (IIS), e de outras instituições nacionais e internacionais, divulgaram um artigo na revista científica Nature Ecology and Evolution contendo dados preocupantes. Segundo os pesquisadores, o cerrado perdeu 46% de sua vegetação nativa, e só cerca de 20% permanece completamente intocado. Até 2050, no entanto, pode perder até 34% do que ainda resta.

Isso levaria à extinção 1.140 espécies endêmicas – um número oito vezes maior que o número oficial de plantas extintas em todo o mundo desde o ano de 1500, quando começaram os registros. Eles apontam que em 30 anos o cerrado brasileiro pode ter a maior extinção de plantas da história.

Mas alguns dados vislumbram uma saída. De acordo com o estudo, restaurando áreas do cerrado que foram menos degradadas e são importantes para a biodiversidade, seria possível reverter até 83% do quadro de extinções previstas. Paulo Bellonia esclarece que a SaveCerrado atua justamente nestas áreas de maior importância para a biodiversidade, maior concentração de veredas e baixo IDH.