Tratamento do hipotireoidismo congênito possibilita desempenho intelectual adequado

Dissertação da UFMG avaliou cognição em jovens acompanhados pelo Programa de Triagem Neonatal de Minas Gerais.

Diagnóstico precoce e acompanhamento médico regular podem garantir às pessoas com hipotireoidismo congênito um desempenho cognitivo (intelectual) semelhante ao de indivíduos que não têm a doença. Essa é a conclusão de dissertação defendida no Programa de Pós-Graduação em Ciências da Saúde da Faculdade de Medicina da UFMG que avaliou 63 jovens, dos 11 aos 16 anos, divididos entre aqueles que convivem e não convivem com a doença congênita.

O hipotireoidismo congênito é caracterizado pela produção baixa ou nula do hormônio da glândula tireoide, localizada na região do pescoço. “Esse hormônio é fundamental para o desenvolvimento do sistema nervoso central e sua privação na vida fetal e primeiros três anos de vida pode causar danos irreversíveis ao desenvolvimento neuropsicomotor da criança”, explica a autora do estudo, a psicóloga Jéssica de Andrade. Segundo a pesquisadora, mesmo com o tratamento precoce ainda restam dúvidas sobre a ocorrência de pequenas alterações no funcionamento da glândula tireoide, o que poderia causar déficits de inteligência: “Por isso é importante avaliar as funções cognitivas desses pacientes”.

Participaram do estudo, como grupo caso, 34 pacientes diagnosticados pelo Programa de Triagem Neonatal de Minas Gerais e acompanhados pelo Hospital das Clínicas da UFMG, todos eles com a forma primária e permanente da doença, considerada a mais comum e que exige acompanhamento por toda a vida. “Os 29 participantes do grupo controle (sem a doença) foram recrutados em uma escola pública e pareados aos demais por idade, sexo, escolaridade e nível socioeconômico”, informa Jéssica.

O desempenho cognitivo foi avaliado em termos globais e específicos. Para isto, instrumentos neuropsicológicos de referência mundial, como o WISC IV, que gera resultados em QI (quociente de inteligência), e os testes de Fluência Verbal e dos Cubos de Corsi, que analisam, respectivamente, as habilidades de execução do cérebro e a memória visual, foram aplicados a todos os participantes.
Resultados e a importância do tratamento

O estudo revelou que os participantes dos grupos caso e controle obtiveram capacidade intelectual similar: o QI médio encontrado foi 92,5 e 96 para cada grupo, respectivamente. “As crianças com hipotireoidismo congênito podem vir a ter alguma dificuldade no desempenho cognitivo de forma geral, como se queixam algumas mães em relação ao desempenho dos filhos na escola, mas o estudo mostra que essas dificuldades podem ser pontuais. Como um todo, na prática, estas crianças têm um desempenho cognitivo semelhante ao das crianças saudáveis”, explica Jéssica.

O índice de compreensão verbal, que demonstra a capacidade de raciocínio verbal, foi o único resultado que apresentou diferença estatística significativa entre os grupos. “Porém, essa diferença não tende a ser muito relevante na prática”, afirma a psicóloga.

Considerando apenas o grupo caso, as diferentes causas da doença, como inexistência ou malformação da glândula tireoide ou incapacidade de produção do hormônio tireoidiano, não tiveram influência sobre a capacidade cognitiva obtida. Já os fatores socioeconômicos e de tratamento se mostraram influenciadores deste desempenho. Como afirma a pesquisadora, filhos de mães com maior escolaridade tendem a ter desempenho cognitivo maior, assim como crianças com maior nível socioeconômico: “Isso vale para a maioria das crianças, pois o desempenho cognitivo está muito relacionado aos estímulos que ela recebe e de onde elas vêm”. Referente ao tratamento, a relação encontrada foi a mesma: quanto maior a dose inicial do medicamento, melhor o desempenho cognitivo.

Para a psicóloga, os resultados mostram a importância do diagnóstico precoce e do tratamento: “Não tínhamos nenhum estudo de avaliação cognitiva com as crianças triadas aqui. Então com a pesquisa eu vi que as crianças em acompanhamento para o hipotireoidismo congênito têm um desempenho cognitivo adequado, o que mostra que o Programa de Triagem Neonatal funciona e deve continuar”.

 

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