Érica Machado e o Trem das 7

TREM DAS 7: de viajante a condutor da própria vida em projeto voluntário, Érica Machado realiza coaching com pessoas em situação de rua A ex-apresentadora de TV, psicóloga e coach Érica Machado, criou e está desenvolvendo um projeto voluntário que realiza coaching com pessoas em situação de rua.

Os encontros são coordenados por Érica Machado e Tânia Campos, também coach e psicóloga. Mais que uma ação assistencialista, Érica propõe e está desenvolvendo um trabalho que já está fazendo a diferença para os participantes. Os membros do grupo estão realizando palestras, onde compartilham as experiências de vida antes e após o processo que dura 12 sessões. A história não termina aí. Alguns deles estão sendo encaminhados para recolocação no mercado de trabalho e um curso de empreendedorismo é a pauta da segunda etapa do projeto.

 Érica Machado e o Trem das 7

No final de 2016, Érica Machado iniciou sua participação em um projeto voluntário no Albergue Tia Branca.  Liderado pelo Tio Flávio Cultural, quinzenalmente, leva arte e cultura para os albergados. Em conversa com os albergados, certo dia, a coach encontrou um que afirmou estar bebendo muito e consumindo muita droga. “A pergunta mais óbvia foi a que fiz: ‘Por quê?’A resposta que ouvi, foi a mais desconcertante: ‘Para dar conta’. Me atravessou com um punhal e conversamos sobre este ‘dar conta’: medos reais. Medo da violência, medo de ser queimado vivo, medo de não conseguir reconstruir a vida, culpas, a dor causada pela  invisibilidade, saudade de casa, o frio. Naquele momento eu me fiz  perguntas decisivas e que me colocaram em ação: O que eu posso fazer para mudar esta situação? Mesmo que seja a situação de uma pessoa? No impulso, levantei-me  e procurei a diretora do Albergue e propus um processo de coaching. Eu e a Tânia Campos já tínhamos experiência em desenvolvimento de grupos com processos de coaching. Então, decidi  convidá-la a participar e ela aceitou, na mesma hora.” (Érica Machado)

No dia 03 de janeiro Érica realizou uma palestra no Albergue, explicando o que seria o projeto. No início, a turma acolheu doze participantes.  Dois deles desistiram na primeira sessão, outros três, ao longo do processo deixaram o grupo. Tânia e Érica finalizaram os trabalhos com a primeira turma com seis integrantes.

“O processo de coaching é um processo de transformação que possibilita às pessoas alcançarem seus objetivos . Investiga o estado atual de vida e define, com clareza, o estado de vida desejado. A partir daí, traçamos metas, planejamos ações, desenvolvemos habilidades necessária para se alcançar o objetivo”, explica Érica Machado.

Por que ” Trem das 7″?

“Sete horas – 7 –  é o horário do início da sessão. O trem é uma metáfora. Para que uma mudança aconteça, você tem que abandonar crenças que te limitam, ter metas, planejar ações, ultrapassar limites, vencer desafios. É ir pulando de vagão em vagão, até  se tornar o “condutor da própria vida” (Érica Machado)

A primeira turma do “Trem das 7” teve início no dia  05 de janeiro.  E, a segunda, já está em ação desde o dia 30 de março.  As sessões acontecem toda quinta-feira, das 7 às 9 da manhã, no Albergue Tia Branca (Rua Conselheiro Rocha, 351 – Floresta – BH – MG).

“No início dos trabalhos com a primeira turma, encontramos homens que não acreditavam que uma mudança pudesse acontecer. Desacreditados de si, com dificuldade de “sonhar”. As mudanças são muito concretas: desde a eliminação do consumo de substâncias tóxicas até o planejamento da saída da rua.” (Érica Machado).

Relatos de alguns integrantes da primeira turma do “Trem das 7”

“A sessão que fez a diferença para mim foi quando fui levado a pensar as ‘perdas e ganhos’. Me emocionei muito no dia. Eu ficava achando que a mudança seria difícil, que sair da rua seria difícil, abandonar os maus hábitos seria difícil, mas quando eu parei para pensar o quanto eu estava perdendo por estar nesta situação eu chorei muito. Me deu saudade de quando eu trabalhava, das minhas filhas, de ser uma pessoa respeitada. Eu vi que eu precisava mudar naquela hora e que só dependia de mim”. (Leo)

“Todas as sessões foram importantes para mim. Eu ainda tenho medo da recaída, sabe.. Mas quando eu lembro do grupo, eu fico forte. O grupo da força pra gente, a gente fica disputando entre a gente quem tem mais vitórias. Isso é tão bom! Eu quero voltar a ser o orgulho para a minha filha. Eu serei.” (Ednilson)
“Eu não tinha mais perspectiva de nada nessa vida. Entrei nesse projeto para ver qual seria o lero-lero. Pensei:  não tenho nada para fazer mesmo, vou lá ver qual é! Hoje, eu voltei a estudar, tô fazendo curso de cabeleireiro, vou ter uma profissão. Dei até entrevista na rádio. Tô me sentindo gente. Acho que a minha mãe, que já morreu, deve estar sentindo orgulho de mim”. (Fernando)

O Projeto conseguiu uma parceria com o Centro Divina Providência, onde alguns estão fazendo cursos profissionalizantes.

Um dos grandes desafios relatados por eles é que –  além de todas as dificuldades que viver na rua representa –  arrumar emprego não é nada fácil. Os relatos apontam que quando entregam algum currículo e tem que comprovar residência, são preteridos.

Para evitar que os integrantes do grupo fiquem reféns do emprego formal, as profissionais voluntárias decidiram dar continuidade ao projeto com um curso de Empreendedorismo.  As aulas serão ministradas por uma Guilhermina Abreu, empreendedora social, que já tem expertise em empreendedorismo social e que já trabalha com recuperandos da APAC. “Mais um voluntário que sobe no trem, nessa viagem”, celebra Érica Machado.

Outros voluntários estão embarcando nesse trem. Laura Barreto e Bê Santanna, dois praticantes da corrida de rua, criaram o Projeto “Vou Correndo”: um grupo de corredores de rua com os participantes do Trem das 7. Correr é muito simbólico: é sair do lugar, além de todos os benefícios físicos que pode proporcionar.  Eles passarão por exames médicos, fisioterápico e nutricional.

No dia 20 de abril os integrantes do primeiro grupo “Trem das 7” realizam a palestra “TREM DAS 7: de viajante a condutor da própria vida”, na Defensoria Pública, como convidados do projeto “Sala de Espera”.

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